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21.12.16


*****antropoceno*****

(wiki..)



Antropoceno é um termo usado por alguns cientistas para descrever o período mais recente na história do Planeta Terra. Ainda não há data de início precisa e oficialmente apontada, mas muitos consideram que começa no final do Século XVIII, quando as atividades humanas começaram a ter um impacto global significativo no clima da Terra e no funcionamento dos seus ecossistemas. Esta data coincide com a aprimoração do Motor a vapor por James Watt em 1784. Outros cientistas consideram que o Antropoceno começa mais cedo, como por exemplo no advento da agricultura. As tentativas de datação precisa revelam, porém, o problema do necessário distanciamento histórico na ponderação de eventos e grandezas relevantes para a escala de tempo geológico. Um hipotético observador distanciado milhões de anos no futuro poderá, munido de suficiente informação, melhor determinar uma data e uma tipologia para o Antropoceno. Perante o alcance das consequências da ação do Homem na evolução do Planeta Terra, o Antropoceno poderá ser reconhecido e classificado, por exemplo, como um novo período ou era geológica. Nesta perspectiva mais lacta é plausível apontar o seu início a partir do surgimento do Homo sapiens.

mais

2.12.16

La Révolution espagnole (Barcelona). 3-9-1936










sobre




11.8.14

península ibérica

1/15/14 at 4:55 PM 


Tudo isto se mistura com uma relação afectiva em geral.. que não sei explicar muito bem. (again estupada da identidade) Daí vem a península.. a perspectiva, a portugalidade, o facto de gostar do alentejo e continuar a gostar quando se passa a fronteira. Nem quero discutir fronteiras, ou quero, mas não com as cartilhas de sempre. Acho muita graça à relação das pessoas do porto, minho e trás-os-montes com os galegos, talvez seja naif, mas apercebo-me de tantas relações que são de pura empatia.. talvez porque se tratam como regiões e não como países. E o português que se fala na fronteira em trás-os-montes quase não se distingue do galegó-qualquercoisa que se fala pra lá da fronteira. Daí vinha também o interesse em Cambedo da Raia (2º post no blog), podemos falar disso depois. Bom, isto não é para questionar nada, mas é uma espécie de constrangimento por sentir que ali já não me pertence. Uma vez ouvi o frank zappa dizer que não era particularmente patriótico em relação aos estados unidos mas que lhes reconhecia uma vantagem quando comparando com a europa, porque sentia que naquela imensidão de território, podia chegar à outra ponta do continente e continuar a sentir-se em casa e que os franceses olham para os países vizinhos mesmo ao lado e dizem ide-vos foder, isto vale o que vale e é erróneo em parte (então quando começa a aparecer o méxico, esquece) mas pensei que havia de qualquer coisa de curioso na afirmação. Será mesmo a língua a puta da pátria??? Uma grande ibéria seria necessáriamente broken, sim. Mas quero aprofundar os majos e as majas, perceber o que quer o antónio sardinha e de que é feito o nacionalismo português, está-me a interessar a questão basca, nacionalismo fabricado e os bascos que se estão a cagar para españa e para euskadi e andam a patinar ali no meio. E por fim, apetece-me a música, a televisão e os livros e essas coisas na península. Criar legendas..

o estado do mundo

as revoltas de 1820's; 30's; 50's
comuna de Paris
internacionais
o mundo (outras revoluções)

31.7.14

EL CORTO VERANO DE LA ANARQUÍA DE BARCELONA
























Barcelona, julio de 1936. Treinta mil milicianos, anarcosindicalistas de la CNT, armados con fusiles viejos y algunas ametralladoras, se echan a la calle para frenar al ejército golpista. Treinta mil locos, treinta mil cuerdos, treinta mil hombres y mujeres soñando despiertos, derrotan a las tropas del general Goded. Durruti, García Oliver y Ascaso lideran la lucha. Durruti cae herido: una bala le roza el pecho y otra la frente. Protegido tras una barricada, ve caer a Ascaso, su compañero de tantos años de lucha, quien, con una actitud quijotesca, suicida, se ha arrodillado en mitad de la calle, desprotegido, afinando la puntería para acertar al francotirador que desde el cuartel de Atarazanas diezma las líneas de los anarquistas. Una lluvia de balas le destroza el pecho. Los anarquistas, presos de un furor incontenible, se lanzan en estampida sobre los muros del cuartel. Abren un boquete en ellos y se introducen a través de él, acabando con la resistencia.
Los anarquistas alzan el cuerpo de Ascaso en brazos. Tiene la frente atravesada por un balazo y un reguero de sangre le baja por las mejillas. Aún tiene los ojos abiertos. Durruti y Garcia Oliver lo ven pasar, mientras la muchedumbre estalla en gritos “¡Han matado a Ascaso!”. Observan su cuerpo alejándose, sacudiéndose sobre los hombros de los compañeros de la CNT. Se miran incrédulos. Durante unos segundos el estupor se apodera de ellos. Pero no hay tiempo para el duelo. Enseguida se recobran. Se levantan de nuevo. Se dirigen al edificio de la comandancia militar, que se rinde tras unos minutos de lucha. La rebelión ha fracasado en Barcelona. El pueblo en armas ha derrotado a la reacción, al fascismo, y un viento como nunca antes sopló en España recorre las calles de Barcelona.
“¡Viva la FAI! ¡Viva la anarquía! ¡Viva la CNT! ¡Compañeros! ¡Hemos derrotado a los fascistas! ¡Los combatientes obreros de Barcelona han vencido al ejército!” gritan. El mundo nuevo que traen los anarquistas en sus corazones comienza a edificarse en Barcelona. Empieza el corto verano de la anarquía. Es el verano de la esperanza, el verano de la emancipación del proletariado. Nunca antes hubo tanta ilusión en los ojos de ningún español. La clase obrera española, sufridora de incontables agravios, que había soportado el hambre, la miseria, la represión y la muerte a manos de los patronos, dirige por primera vez en la historia su propio destino. La ciudad afila sus calles con los puños en alto de sus habitantes. Barcelona es, durante dos meses, la ciudad de la clase obrera.
Lo que ocurrió después está en los libros: comunismo libertario, esperanza, desunión más tarde; Durruti muerto en Madrid; lucha entre comunistas y anarquistas, con el posterior triunfo de los primeros; desarticulación de las asociaciones anarcosindicalistas; llegada de las tropas del general Yagüe y victoria de los nacionales; cuarenta años de oscuridad.
Pero yo aún puedo sentir aquel viento de libertad, aquellas voces emocionadas, el coraje de aquellos obreros dispuestos a morir para frenar al fascismo. Una energía tan poderosa como aquella no puede destruirse con una derrota. El carácter de aquel pueblo fue derrotado, pero nunca podrá ser destruido. Se transformó. Se convirtió en una fuerza inmaterial que hoy vive en los corazones de muchos. Siempre pensé que los españoles tienen algo de anarquistas, que no puede ser casualidad que este país, anomalía histórica y política, fuera el único de Europa con más anarquistas que comunistas. Hay una parte de aquella Barcelona en cada pueblo, en cada barrio, en cada ciudad. Hay una parte de aquella Barcelona en cada hombre y cada mujer que levanta su voz contra la opresión. El corto verano de la anarquía de Barcelona puede convertirse en la larga primavera de la justicia social. Por eso se teme tanto a la izquierda en España: porque aquel sol del verano de Barcelona, aquella luz, puede disipar, en cualquier instante, la oscuridad que atravesamos.



Javier Nix Calderón 

29.7.14

1936 a 1939, preparação para o chamado período dourado do Cinema Português

O Final dos Anos 30

A segunda metade da década de 30, concretamente de 1936 a 1939, corresponde à fase de preparação para o chamado período dourado do Cinema Português, no qual a arte de representar e as histórias de gosto popular são ainda hoje, em pleno séculoXXI, vistas pelas mais diversificadas gerações. 
Em 1936 a Tobis alugou o seu estúdio para a rodagem do filme “A Revolução de Maio”, ao então designado Secretariado de Propaganda Nacional (SPN), criado em1933, com a missão de coordenar a propaganda política do Estado Novo, assim como a informação pública, comunicação social, acção cultural e o turismo, tendo tomado mais tarde, em 1945, a designação de SNI (Secretariado Nacional de Informação).
Com a mão forte de António Ferro, o qual dirigiu as duas instituições de 1933 1950, foi chamado para a função de Realizador o denominado homem do regime, em termos cinematográficos, António Lopes Ribeiro, sendo o financiamento do filme suportado pelo próprio SPN.
De acordo com “O Cinema no Ensino da História”:
“O filme tem um personagem omnipresente que passa por ser a acção da polícia que, no nosso entender, simboliza o próprio regime politico – o Estado Novo –, que tudo controla e tudo vê, a própria ordem dos regimes de direita. A personagem imprime o carácter ditatorial ao regime e ao filme, pois não existe uma visão plural e democrática. A visão plural é-nos dada no princípio do filme em que surge César Valente, sujeito subversivo que quer trazer novos ventos a Portugal, e a polícia do regime que procura combater esse mal, porém aguarda que as alterações que aquele observa na sociedade sejam suficientes para que César Valente se submeta ao regime e concorde com o projecto de uma revolução continuada, tendo o seu princípio em 28 de Maio de 1926.
Ambas as visões são complementares para que a história funcione, o caos procura destronar a ordem, porém a ordem vence e absorve os radicais ao regime. Pois o filme retrata o Estado Novo nas suas virtudes inquestionáveis” 
revolucao maio
“A Revolução de Maio”
Com a duração de 138 minutos, “A Revolução de Maio” conta na ficha técnica, para além de António Lopes Ribeiro (Realizador), com Baltazar Fernandes, pseudónimo deAntónio Lopes Ribeiro, e de Jorge Afonso, pseudónimo de António Ferro, autores do  argumento, sendo os diálogos e a montagem também da responsabilidade de António Lopes Ribeiro.
No casting fazem parte, entre outros, Luís CamposRicardo MalheiroRibeirinho eMaria Clara (cantora), sendo a cenografia de António Soares, a direcção de fotografia de Manuel Luís Vieira e Isy Goldberger, a direcção de som de Paulo Brito Aranha, a música e canções de Wenceslau Pinto, sendo o laboratório de imagem da Lisboa Filme, com distribuição em película de 35mm da Sonoro Filme.
A estreia deu-se a 6 de Junho de 1937, no Cinema Tivoli, em Lisboa.
João Bénard da Costain Histórias do Cinema, escreve:
“... A Revolução de Maio - é o único exemplo de uma ficção política tentado até aos anos 70 e o único filme feito explícita e expressamente à glória do Estado Novo, que o encomendou e pagou. (...)
Mas mesmo para esta versão tão soft de "filme fascista", António Ferro teve as suas dificuldades.
Lopes Ribeiro conta que antes dele, Ferro convidou sucessivamente para a realizaçãoLeitão de BarrosJorge Brum do Canto e Chianca de Garcia e que todos recusaram.
E o acolhimento ao filme, apesar de soleníssima estreia no Tivoli, a 6 de Junho de1937 (não se conseguiu acabar o filme ainda em 1936, ano do aniversário), com a presença do próprio Salazar, foi discreto, para dizer o mínimo.
Ninguém se lembrou de insistir mais em tal género de fitas, nem de pedir mais obras "que exaltassem vibrantemente a juventude, o trabalho e a alegria de viver" ou em que "as imagens colaborem com a história", na senda de palavras de Mussolini, recordadas por António Ferro na ocasião.
Aliás, o mais curioso exemplo dessa colaboração das "imagens com a história" consiste na extensa passagem de "Revolução de Maio" em que Lopes Ribeiromontou, com a ficção, o documentário do discurso de Salazar em Braga. Muito tempo depois, o Realizador afirmou que essa ideia ("actualidades" mais "ficção") lhe viera da sua estada na URSS em 1929 e dos filmes de "agit prop" de Dziga Vertov..."
trevo quatro folhas
“O Trevo de Quatro Folhas” 
O filme “O Trevo de Quatro Folhas” traz de novo à Tobis, em 1936, o Realizador Chianca de Garcia, o qual é co-autor do argumento, sendo este do género comédia de cariz americano, em que o trocadilho relativo a um determinado personagem que por parecença fisiológica com outras pessoas, vive situações nem sempre agradáveis.
Não existe qualquer cópia deste filme, razão pela qual só se podem fazer referências ao mesmo através de crónicas elaboradas na época por críticos em revistas e jornais. 
Entretanto, no 1º de Dezembro de 1936 a Tobis cede, gratuitamente, as bobinas dos filmes “A Canção de Lisboa” e “As Pupilas do Senhor Reitor”, assim como os camiões de geração de energia eléctrica, dos projectores de iluminação e de captação de som directo, à SUSF (Sociedade Universal de Super Filmes) para a concretização de uma récita de gala por ocasião da estreia do filme “Bocage”, o qual tinha sido rodado no estúdio da Tobis.
bocage filme
“Bocage”
O filme “Bocage”, de Leitão de Barros, teve duas versões concretizadas pelo mesmoRealizador, uma portuguesa e outra espanhola, esta última com o título “Las Três Gracias”, tendo sido entregue o papel principal, respectivamente, a Raul de Carvalho e a Alfredo Mayo, tendo sido até à data o filme mais caro, ou seja, com um custo de co-produção a rondar os 2.360 contos (472€).
Neste filme Leitão de Barros faz uma reconstituição histórica da Lisboa Antiga, jamais feita em Cinema, com cenários deslumbrantes e um soberbo guarda-roupa, contudo, de acordo com Luís de Pina:
“Leitão de Barros não consegue harmonizar, como em “A Severa”, o estúdio e a Natureza, a verdade dos rostos e a convenção da época reconstituída. Bocage, apesar do brio de Raul de Carvalho, pouco à vontade no personagem, deixa de ser o poeta singular, a figura discutida que o povo consagrou”.
Em Espanha, devido à guerra civil, o filme só se estreou em 1940. 
Em termos de sinopse, o mesmo pode resumir-se a:
A paixão de Bocage, antigo oficial de infantaria da marinha, pelas irmãs de um camarada António Coutinho, Márcia e Anália. Atormentado, Bocage dedica-se aos prazeres fáceis, junto da sensual Canária, mulata cantadeira do Brasil” 
Recuperando o que escreveu Armando de Miranda, em 1937:
Bocage é, em técnica e segurança cinematográfica, o melhor filme de Leitão de Barros.
A matéria-prima trabalhada, o tema, a história, é de inferior qualidade, não tem grande interesse, nem equilíbrio, nem emoção; mas a maneira como está trabalhada, a forma como aquilo nos é cinematograficamente apresentado, está bem e está certa, acusando os benéficos efeitos da experiência adquirida pelo realizador nos seus anteriores trabalhos e comprovando nítidos e claros progressos na arte das imagens.
Sintetizando: A essência é fraca; A forma é boa”.
Tendo concluído que:
O homem que escolheu o argumento, o seleccionador do motivo a tratar, falhou, errou na sua visão das coisas; mas o Realizador, esse não; esse, se não pode dizer-se que triunfou, deu, pelo menos, um grande passo em frente no campo da técnica cinematográfica, tratando com felicidade e segurança o tema inseguro e infeliz”.
maria papoila
“Maria Papoila”
Em Março de 1937Leitão de Barros pisa mais uma vez o estúdio da Tobis com o objectivo de realizar a comédia musical “Maria Papoila”, recorrendo para o efeito a uma actriz, Mirita Casimiro, cujo percurso profissional estava a dar excelentes resultados, tendo contribuindo significativamente para o sucesso do filme.
Citando o Realizador, numa entrevista da época:
"Maria Papoila é um filme popular. Realizado dentro de uma técnica simples, pois não pretende revolucionar a cinematografia, procurei rodeá-lo de todas as condições que possam despertar a atenção do público. Foi para ele que trabalhei, sem outras preocupações que não fossem as de realizar espectáculo acessível, no qual a alegria e a emoção têm lugares marcados.
A missão do cinema é contar - e quanto mais reportagem da vida, mais certo é. Eis por que a realização do meu filme não tem quaisquer aspectos transcendentes. Pelo contrário, toda a acção decorre numa toada simples, como simples é a história de amor que a anima.
Bem sei que o cinema, para muita gente, devia ter características intelectuais e directrizes superiores. Mas a verdade é que a sua feição mais acentuada é a de ser um espectáculo de multidões." 
Em termos de sinopse o filme trata da vinda para a grande cidade e respectiva integração de quem sempre viveu em zonas rurais, no qual ressalta a presença de soldados e criadas de servir, em voga na época, e os seus passeios no dia de folga, ou seja, ao domingo, assim como a sua entrega aos bailaricos dos santos populares, os quais constituíam um bom pretexto para o início de um novo namorico.
A história teve na imaginação de Vasco Santana a sua origem, em parceria comAlberto Barbosa e José Galhardo, sendo esta produzida em termos cinematográficos pela empresa Lumiar Filmes, cuja constituição se ficou a dever ao próprio Realizador,  o qual se associou a Campos Ferreira, o detentor do Parque Mayer através da sua empresa a Sociedade Avenida Parque.
Esta associação estratégica deveu-se ao facto de o Realizador pretender no elenco a actriz Mirita Casimiro, a qual se encontrava ligada através de contrato à Sociedade Avenida Parque, pelo que, apesar do sucesso de “Maria Papoila”, a Lumiar Filmes não voltou a produzir qualquer filme.
No elenco fizeram parte, também, o grande António Silva, num crescente de afirmação como actor de Cinema, Eduardo FernandesAlves da Costa e Maria Cristina, entre outros, tendo o filme sido rodado em película de 35mm, a preto-e-branco e com a duração de 98 minutos, tendo-se verificado a sua estreia comercial noSão Luiz, em Lisboa, a 15 de Agosto  de 1937.

Entretanto, em junho de 1937, é inaugurado o novo laboratório da Lisboa Filme, num espaço disponibilizado na Quinta dos Ulmeiros, paredes meias com a Quinta das Conchas, local onde a Tobis Portuguesa tinha instalado o seu estúdio e laboratório.
Por seu lado, o Decreto Lei 28.323/37 faz a prorrogação da isenção do pagamento de contribuições, assim como direitos alfandegários, pelo prazo de cinco anos, mais concretamente até de junho de 1942.  
8 de fevereiro de 1938, a Tobis Portuguesa celebra com o governo um contrato para a produção de filmes em África no âmbito da “Missão Cinegráfica às Colónias”.
Missão criada, em Julho de 1937, por iniciativa do Ministro das Colónias, tinha como objectivo a realização de documentários que divulgassem a vida local e o esforço colonizador desenvolvido pelos portugueses.
Enquadrada pela Agência Geral das Colónias, a Missão decorreu entre fevereiro e outubro de 1938 tratando-se da mais detalhada e exaustiva digressão de uma equipa de Cinema nacional fora do território continental.
A 14 de fevereiro de 1938, através da publicação do Decreto Lei n.º 28466/38, o mesmo passa a isentar o condicionamento das indústrias os laboratórios e depósitos de fitas cinematográficas.
Em março do mesmo ano, concretamente a 14, é dada aprovação ao novo contrato a ser celebrado entre a Tobis Portuguesa e a Klangfilm de Berlim, no sentido de aTobis adquirir uma nova unidade de captação e registo de som transportável do mais moderno que a indústria apresentava à data, a Eurocord B.
aldeia roupa branca
“Aldeia da Roupa Branca”
Esta aquisição permitiu que a empresa continuasse a rodagem de filmes no seu estúdio como, “Aldeia da Roupa Branca”, evitando-se, assim, a paragem ou a sonorização no estrangeiro, dado que o equipamento existente estava a ser utilizado na “Missão Cinegráfica às Colónias”.
27 de abril procedeu-se à alteração dos Estatutos da Tobis Portuguesa, da qual constou a nova constituição do corpo social, ou seja, o Presidente do Conselho de Administração passou a ter uma acção mais interventiva através da presidência do Conselho de Produção, sendo criada, ainda, a figura do Administrador-Delegado.
Para Chianca de Garcia o ano de 1938 foi muito produtivo dado ter realizado dois filmes, concretamente a história dramática “A Rosa do Adro”, já filmada na versão muda, em 1919, pelo francês George Pallu para a Invicta Film, decorrendo a acção no período das lutas liberais, agora na versão sonora com Maria  Lalande Oliveira Martins, o galã da época, com o qual tivemos oportunidade de conviver na sua passagem pela RTP, e “Aldeia da Roupa Branca”, um dos mais marcantes filmes passado numa zona saloia lisboeta, ao qual Beatriz Costa ficou definitivamente ligada, tanto ao filme, dado ter sido o último em que fez parte do elenco, como à aldeia onde nasceu na zona da Malveira, mais concretamente na Charneca do Milharado.
rosa adro
“A Rosa do Adro” 
Enquanto “A Rosa do Adro” nos conta a história de Rosa e a sua paixão porFernando, a qual é correspondida pelo mesmo, só que este vai para o Porto e acaba por se enamorar por Deolinda, filha de uma baronesa de grandes recursos económicos, no “Aldeia da Roupa Branca” toda a trama se desenrola em torno de duas famílias que pretendem dominar, em termos de monopólio, o serviço de transporte então usado pelas lavadeiras, tanto na entrega da roupa tratada, ou seja, lavada e engomada, e a recolha de mais matéria prima para alimentar o negócio.
Num filme, superiormente dirigido, surgem dois nomes que são uma referência para o audiovisual português, respectivamente Elvira Velez (actriz) e Hermínia Silva (fadista), para além de Beatriz CostaJosé AmaroManuel Santos Carvalho e Óscar de Lemos.
À data da rodagem de “A Aldeia da Roupa Branca”, Chianca de Garcia era oSecretário-Geral do São Luiz, posição que  lhe permitiu fazer a proposta à empresa proprietária do mesmo para a constituição de uma empresa, a Espectáculos de Arte, para produzir, unicamente, “A Aldeia da Roupa Branca”, juntando-se ao grupo aSociedade Avenida Parque, detentora dos direitos de exploração do Parque Mayer, como referido anteriormente, assim como o Produtor Luís Machado.
O cenário da aldeia saloia foi montado junto ao estúdio da Tobis, sendo o mesmo da responsabilidade do Arq. Arcindo Madeira. O filme, rodado em película de 35mm, apreto-e-branco, tem a duração de 82 minutos.
rodagem fidalgos
Rodagem do filme “Os Fidalgos da Casa Mourisca”
Um outro filme de referência para a época, para além de outras razões, deveu-se ao facto de ter sido o primeiro, na qualidade de Realizador Arthur Duarte, foi “Os Fidalgos da Casa Mourisca”, o qual estreou, em Lisboa, no dia 22 de junho de 1938, no pitoresco Cinema Odeon.
Artur Duarte pegou na Obra homónima de Júlio Dinis e deu-lhe uma linguagem menos literária e mais cinematográfica, mantendo, contudo, toda a história contida no romance, deixando o modo de vida do século XIX transportando-o para o século XX, mais concretamente para 1937, ano de rodagem do filme.
No cartaz constavam os nomes de Henrique de AlbuquerqueTeresa Casal (à data mulher do Realizador), Tomás de Macedo e, em estreia absoluta como actor,Henrique Campos, o mesmo que anos mais tarde enveredou pelas as funções deRealizador.
rodagem cancao terra
A Canção da Terra
Em 1938 entra em acção, também, pela primeira vez, Jorge Brum do Canto, o qual tinha ligações familiares com o arquipélago da Madeira, em especial com a Ilha de Porto Santo na qual roda “A Canção da Terra”, sob um Sol muito intenso ao longo de um mês, reflectindo este estado do tempo o grande problema da Ilha, ou seja, a ausência prolongada de chuva e os malefícios da mesma, assim como a sua influência na relação entre os ilhéus, que acabava, quase sempre, com o empurrar os mesmos para a condição de emigrantes.
Graças à sua força plástica e uma dramaturgia  intensa a crítica da época, dos mais diversificados quadrantes, vergou-se perante os resultados alcançados, tendo Alves Costa concluído ser esta Obra:
“Um filme a sério, a valer, honesto, viril e são, razão pela qual deve ser considerado o primeiro filme português a apresentar, verdadeiramente, qualidades que o tornam uma autêntica Obra cinematográfica”
Do elenco fazem parte Elsa Romina (Bastiana)Barreto Poeira (Gonçalves)João Manuel Pinheiro (Nazairinho)Maria Emília Vilas (Mãe) Óscar de Lemos (Caçarola), sendo o suporte de rodagem em película de 35mm, a preto-e-branco, tendo a fita a duração de 97 minutos.
Face à posição, à época, da crítica, que o considerou como um filme maior, Jorge Brum do Canto limitou-se a comentar:
“A Canção da Terra é quase um filme de cowboys, tendo, acima de tudo mais, aquele ritmo feroz, impressionante e ofegante dos westerns, ritmo que foi o pai de todo o Cinema de hoje”
Por seu lado, João Bénard da Costa, no seu “Histórias do Cinema”, dá-lhe nota positiva, sendo sua a opinião de que:
Visto à distância de quase cinquenta anos, "A Canção da Terra" não perdeu qualidades, sobretudo naquilo que sempre constituiu o seu forte: o ritmo visual, a sequência sempre dominada pela imagem, a beleza incomparável da terra e do mar, o tom lírico mantido com segurança e sem pieguice. Jorge Brum do Canto soube traduzir essa imagem poética numa forma cinematográfica que muito deve ao seu operador Aquilino Mendes. Mais próximo de Flaherty ou de Epstein que dos russos, sobra-lhe uma sensibilidade e um conhecimento pessoal muito directo daquilo que mostra” 
Estamos em 1939, a um ano do arranque da década marcante do Cinema Português, em que as acções de reequipamento, instalações, assinatura de contratos e tudo mais que a indústria cinematográfica obriga, eis que a Lisboa Filme comunica, no dia1 de fevereiro ao SPN que transferiu o escritório, o estúdio e o laboratório para a sua nova sede na Quinta dos Ulmeiros, a portas-meias com as instalações da Tobis, no Lumiar, procedendo-se, a 19 de março à assinatura do contrato para a produção do filme João Ratão, assim como a 13 de maio à assinatura do contrato para a produção do filme A Varanda dos Rouxinóis, e, nos finais de maio à aquisição de um equipamento de Back Projection em Paris, a ser usado no filme João Ratão.         
Em junho a aparelhagem da TobisEurocord B, é alugada pela SPAC para a 2.ª Viagem Presidencial às Colónias de África e Territórios Britânicos da África do Sul, concluindo-se, em setembro, os trabalhos de construção do restaurante, da cozinha e da cantina do estúdio da Tobis, sendo o percurso entre o estúdio e o restaurante feito através de um túnel, o que preservava a maquilhagem e caracterização dos actores ao estado do tempo, caso a deslocação fosse feita pelo lado exterior dos edifícios.
varanda rouximois
A Varanda dos Rouxinóis
19 de dezembro  de 1939 estreia o filme “A Varanda dos Rouxinóis”, de Leitão de Barros, no Tivoli, em Lisboa, com a presença do Sub-Secretário de Estado das Obras Públicas e Comunicações, do Governador Civil de Lisboa, do Presidente do MunicípioDr. Duarte de Figueiredo, em representação do Ministro da Educação Nacional, e outros. O filme apresenta a actriz revelação Madalena Sotto.
Na qualidade de último filme da década dentro do género comedia popular, “A Varanda dos Rouxinóis” conta com um casting de luxo com especial destaque para as interpretações de António Silva e Maria Matos, pela primeira vez num frente-a-frente,CostinhaOliveira MartinsSilvestre AlegrimRegina MontenegroDina Teresa e a estreante Madalena Sotto, sendo a fotografia da responsabilidade da dupla Salazar Diniz/Octávio Bobone, argumento e diálogos de João Bastos e a música de Frederico de Freitas.  
A interprete de Severa no filme com o mesmo nome, Dina Teresa, volta aos ecrãs portugueses pela segunda e última vez, de novo pela mão de Leitão de Barros, correspondendo está à sua última aparição, no papel de uma actriz que passa a um plano secundário graças ao aparecimento de uma vedeta da nova vaga, correspondendo esta situação a um facto real na sua vida de actriz teatral, girando a história em torno da volta a Portugal em bicicleta. Por tal razão foi viver para o Brasil, só voltando a Portugal para morrer no país que a viu nascer.
A responsabilidade de Produção esteve a cargo da Tobis Portuguesa, a qual optou pelo registo dos cerca de 102 minutos de filme de 35mm a preto-e-branco. A cópia existente na Cinemateca Portuguesa (ANIM) não conta com a totalidade do filme, nomeadamente com a parte final.

Madrid

































http://www.madrid1936.es/



20.7.14

Goya, Nacionalismo e Inferno


















 












12/17/13 at 3:29 PM

1- "pão e touros", já te tinha mandado um excerto do panfleto provocatório do León de Arroyal, aqui o surgimento de uma "classe" muito interessante dentro das classes baixas populares , Majos y Majas, as ralés urbanas ultraconservadoras, que vestem fatos exagerados de um folclore tipicamente espanhol que se vai formando (birth of complex lenita). Que nas touradas se vêm representados no matador a pé, que provém da sua estirpe, e que complementa os até então exclusivos toureiros aristocratas (ou assim para o nobre) a cavalo. Os majos e as majas vão passar os domingos em grandes piqueniques nos arrabaldes à saída da urbe e distinguem-se de certas juventudes mais previligiadas influênciadas pelo iluminismo(os pobres, os mesmo da miséria, aparentemente ainda não entram nesta equação), procuram bulhas com eles e chamam-nos "afrancesados".  
2- "eu vi isto", a direita, os monarcóides em geral vão invocar a guerra de independência de 1808 aquando do golpe`36, o 2 de maio, a devastação do napoleão, um caos, e uma vergonha frustrante para um movimento liberal que se vai enterrar à grande. 
«O Dois de Maio de 1808, ocorrido em Madrid, é um dos acontecimentos que mais tem sido interpretado, apropriado e manipulado
historicamente pelos diferentes regimes, partidos e ideologias implicadas no processo de “construção”, definição e consolidação discursiva da nação, da memória colectiva, da identidade e do Estado nacional espanhol.»  (Janete Abrão) 
o nacionalismo(ainda está só a começar) e o tradicionalismo modernos(contrasenso?) vêm daí. E são ilustrações negras dessas contradições que o goya faz.
«A reacção pode implantar-se a partir das alfurjas do estrangeiro, mas nunca a revolução se exporta nas pontas das baionetas.»
3- "disparates", fazendo referência a uma das séries de gravuras brutais do méne (como os desastres e os caprichos), é descrita a descida aos infernos deste período, aos vários infernos, aos interiores, aos metafóricos, aos do imaginário colectivo, ao da guerra imperialista, ao da psicose nacionalista. Uma ligação, talvez forçada, aos subterrâneos ibéricos de que falavas e que procuras (mais uma).
e há muita pintura e gravura a acompanhar isto, claro. e muitas biografias paralelas.
Onde se arruma isto? aqueles caixotes ainda existem? no arquivo mais geral? (memória/arquivo/ficção). Já tens alguma coisa empilhada? 
Ainda não tive tempo de ver uma data de coisas (até algumas que te mandei). Tenho de ver o orlando ribeiro, que  não conheço, geografias sociais parecem interessantes. No outro dia surripiei o "erotismo" da biblioteca de um amigo meu, de maneiras que o tenho aí e vou folheando.. Outras coisas virão. Não sabia nada da "mala de cartão", parece-me óptimo um diálogo com o Brandão.. no mínimo. Promete.  Enfim, tem tudo um ar gostoso..
Em relação ao arquivo, acho que acrescentaria mais dois caixotes ou sub-caixotes: memórias afectivas (nossas) e ensaios/fugas para quando se quiser experimentar um lirismo ou uma condução qualquer. 
Mas pronto, como te disse, não consigo discorrer muito sobre o macro agora, dentro da cabeça. Vou pista a pista... para não me perder.
E é isso, e tu? a quantas andas?
até,
bejo
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PAN Y TOROS
O majo e a maja, que são para o povo espanhol dos anos de 1780 o que o pícaro fora um século mais cedo, o que o incroyable foi para a burguesia de 1800, o que o zazou será para a para a pequena burguesia de 1944, são a encarnação ingénua e pitoresca das contradições e dos sentimentos do povo espanhol de então. Esta bela ovelha ranhosa mai-la companheira são os melhores rapazes e raparigas de certo mundo. Sempre prontos a armar zaragata ou a partir a loiça toda, a ajoelhar-se diante de uma procissão, a gritar: «Viva o rei!», E a achar que a Espanha antiga possuía todas as virtudes, que hoje em dia se perdem. Desconfiam dos filósofos e dos discípulos das luzes, que querem transplantar para Espanha reformas talvez necessárias, mas seguramente estrangeiras. Como os industriais de 1927 iam dançar à rua da Lappe, os grandes senhores de 1780 disfarçam-se de majos de majas, aplaudem no teatro os Sainetes populares de Ramon de la Cruz, caros à gentinha madrilena, recebem em sua casa os toreros e disputam os comediantes.
(...)
EU VI ISTO 
Quando os regicidas de Paris, ao mesmo tempo que a cabeça de um rei, fazem em postas o pilar do feudalismo, a Espanha inteirinha é transportada pela indignação. A guerra que Manuel Godoy declara à República Francesa é uma guerra nacional. São recursos voluntários e o sangue entusiasta do povo que erguem esse exército cujo objectivo é libertar a França do jugo infame da liberdade. Bastam algumas semanas para que esse grande vento caia, que esses recursos se esgotem, e que esse entusiasmo dê lugar ao derrotismo. O próprio Godoy constata: Ninguém aprovava a marcha violênta da Revolução francesa, mas abraçavam-se de boa vontade as teorias que a  tinham produzido; via-se com maus olhos uma cruzada armada para a abafar.  Godoy esse, segue sempre os movimentos que finge dirigir, suspende as despesas, assina em 1795 a paz de Basileia. É em 1798, três anos mais tarde, que Goya pinta o retrato do embaixador de França em Madrid, o ex-regicida Ferdinand Guillemard. O homem que votou a morte do Bourbon de Paris representa a França junto do Bourbon de Madrid. Godoy escreve dessa época: A geração nascente mostrava uma predilecção muito viva pela nova França... sobretudo os jovens da classe intermediária, e alguns das classes priveligiadas. Mesmo em Madrid ...viu-se ...as damas da mais alta nobreza mostrarem-se em público, enfeitadas com fitas tricolores. (...)
 Para Goya e os amigos, nenhuma dúvida: a França revolucionária é a pátria da Liberdade. E continua a sê-lo a seus olhos, quando ela se torna a presa desse pequeno Corso ambicioso, que começa por ser a encarnação da revolução armada, antes de ser a revolução asfixiada. Todas as contradições que vão dilacerar Goya, os amigos, o povo espanhol, vêm daí. As alternâncias entre submissão e revolta, de indiferênça e resistência, que nos chocam em Goya, como em tantos dos seus contemporâneos, existe sobretudo esse conflito latete, ainda mal decifrado por eles, que opõe, na ambiguidade de Bonaparte, a França de 1789 ao Império de 1802. 
A maior parte dos amigos de Goya, para quem a França é pátria das luzes e a conquistadora da liberdade, aderem ao novo regime: Moratin, Melendez, Valdez, Yriarte, Llorente. Goya assiste à sessão da Academia em que Yriarte saúda em José o sábio monarca D. José I (o ingénuo irmão de napoleão que este põe a governar madrid). 
  Jovellanos é mais lúcido. Entreviu imediatamente que a ocupação militar não pode em nenhum caso significar libertação de tiranias. A emancipação social e a presença de soldados estrangeiros são incompatíveis, e o exército dos invasores está às ordens de um rapace. José I bem pode dar-se ares de monarca esclrecido e protector do povo. Napoleão está-se nas tintas para os seus esforços que, em definitivo, servem os seus objectivos. Servem como uma máscara serve um malandrim. José é o "homem de palha" ingénuo do manhoso irmão. Enquanto José abole a Inquisição, decreta a suspensão dos direitos feudais, espadeira no papel as instituições da feudalidade, Napoleão torpedeia tranquilamente os seus esforços fazendo da Espanha uma nação desmantelada, sangrada ao estremo para sustentar o esforço da guerra imperial.  Jovellanos vê claro: Eu não pertenço a um partido, diz ele, mas à santa casa da independência da minha pátria... Poderá José aplicar os belos princípios do rei filósofo a um povo devastado por soldados estrangeiros? A reacção pode implantar-se a partir das alfurjas do estrangeiro, mas nunca a revolução se exporta nas pontas das baionetas.  O exército francês, acolhido pela simpatia passiva ou pela indiferença benevolente do povo espanhol, alguns meses bastam para que apareça como o que sempre foi: um exército inimigo. (...)
OS DISPARATES
William Blake é simplesmente um homem cujos pesadelos são a «projecção» das paisagens industriais da Inglaterra do seu tempo, cujo inferno, como o demonstrou o crítico inglês Klingender, é directamente inspirado pelas fábricas infernais em que penavam os operários de Manchester. O autor de Cantos da inocência e de experiência é um demente perfeitamente razoável.  (...)
Quando pinta o inferno, é porque é contemporâneo do inferno. Mas Blake é um grande poeta, e um desenhador medíocre. E, no entrelaçado das suas contradições e quimeras, nessa mistura singular de espírito revolucionário e alucinação metódica, há qualquer coisa que faz dele o contemporâneo de alma e data do velho surdo. Goya podia escrever, à margem dos seus pesadelos nocturnos e sob as suas visões de guerra: Eu vi isto. E Goya, sem dúvida mais por prudência de que por descuido, omitiu pôr legendas a muitos dos Disparates, essas legendas existem de antemão: são os Provérbios do inferno de Blake: Se o louco persistisse na sua loucura dava em sábio...  As prisões são construídas com as pedras da religião...  A alegria engendra, a dor traz ao mundo...   O que é fraco pela coragem é forte pela manha...  O ar está para a ave, ou o mar para o peixe, como o desprezo está para o desprezível...  Os tigres da cólera são mais sábios que os cavalos da instrução. (...)
Os Disparates são a descida aos infernos de Goya. Ele vem de lá. Sabe que o inferno é a estupidez, e que a estupidez é tirania. Os demónios de Goya terão uma posteridade directa. Nas litografias que Delacroix, fascinado por Goya, consagra ao Fausto de Goethe, tornamos a encontrar esses monstros agachados na sombra que, de Théophile Gautier a Baudelaire, resumiam para o romantismo a mensagem de Goya. Porém, ao lado das criaturas abissais de Goya, os monstros de Delacroix são reconstituições arqueológicas, como as gárgulas que Viollet-le-Duc acrescenta à Notre-Dame. Não passam de «monos» divertidos e pitorescos. Ao passo que, para Goya, os monstros são realidade. À margem de uma gravura dos Caprichos, escreveu: Os demónios são os que fazem mal impedindo os outros  de fazer bem, ou não fazem coisa nenhuma. (Esta gravura dos Caprinhos representa dois monges caricaturais, empaturrando-se complacentemente).
 Realidade, os demónios eram-no para Bosch ao qual os Disparates impõem a referência, e antes de mais pelo título, que Goya pede emprestado aos críticos espanhóis de El Bosco. Eram-no com uma precisão, um rigor que Goya, de certo, não tem. (...)
E, ao termo dos Disparates, a subida dos Infernos também é uma ascensão do animal para o homem, vitória do espírito sobre as bestas que grunhem nas pregas da humanidade desfeita.
Porque Goya sobe dos infernos. É muito belo que os Disparates terminem com uma gravura que dir-se-ia o par exacto, e o contraponto, de uma das tábuas precedentes, esse «Disparate de tontos», disparate dos imbecis em que cinco touros enlouquecidos são projectados no espaço sideral. A última tábua dos Disparates não é horrível, nem talvez tão obscura, como se poderia julgar. Os cinco homens voadores de Goya, musculados, de capacete, planando num céu soberano, não são vítimas precipitadas nos abismos, mas ícaros vencedores, dominando a gravidade que faz cair nas profundezas as bestas desamparadas.  (...)

15.7.14

estranhos jogos interactivos


FLOWERS FROM EXILE
is a larp about the International Brigades of the Spanish civil war

http://beratta.org/flowersfromexile/

(em 2015)


6.7.14

notas sobre controlo dos meios de produção, monopólio de uma ideia de estado social, espírito autónomia e regionalismos

10/31/13 at 1:23 AM

O facto da república ter sido posta em causa foi o que provocou um rebentamento de coisas extraordinárias e completamente contraditórias que acho fascinantes. O Nordeste e a Catalunha em geral, onde estava a ser construído há vários anos um controle absoluto pelos sindicatos (upa upa indústrial também), com direito a milícias compostas por aventureiros e assaltantes de bancos que aterrorizavam as patronais e asseguravam minimante a protecção dos trabalhadores, "rejubilou" com o golpe da extrema-direita..  Enquanto a república ficou um pouco apanhada de surpresa, em Barcelona os sindicatos armaram da cabeça aos pés a população civil e construíram o fôlego estrutural que fez com que o Franco não fizesse um "smooth-sail" por ali acima (como aconteceu na tuga no golpe de 28 de maio - claro que o território espanhol é mais ardiloso- mas talvez fosse uma questão de dias) já que o Franco tinha exército e polícia e, como se viu, o internacionalismo "democrático" se estava pouco cagando para aquilo. Ou seja o golpe do Franco abriu o jogo e as organizações revolucionárias perceberam que podia ser o seu momento. Gosto de pensar que foi também isso que fez um milhão de mortos (acesso de arrogância mortal), uma teimosia infantil de anarquismo, muito mais interessados com a sua autonomia do que com ganhar uma "guerra civil". Não querer nem espanha nem república mas sim ter a vida ideal aqui e agora e começar a fazê-lo já. Claro que isto bate na cabeça das pessoas, os anarquistas catalães já deviam estar com delírios napoleónicos ao ver a vaga de poder que conseguiam produzir...  do caos brotar a oportunidade de fundar um novo tipo de organização social que não fosse um país sequer. 




11/18/13 at 2:41 AM

No programa da BBC4 diz Mary Vincent sobre o tecido social espanhol:

"Há uma dependência e uma identificação com a Igreja e com a ordem antecedente que sempre a defendeu. A incapacidade do estado em matérias de segurança social e educação é tão acentuada que a Igreja acaba por cumprir esse papel. E mesmo quando a segunda República avança com um ambicioso plano de reformas sociais e educativas e faz um esforço para substituir a Igreja neste aspecto nunca chega a ter o dinheiro para executá-las."

(acerca da incapacidade dos governos da república de assegurarem a responsabilidade pelo ensino e a onda cavalgada pelos sindicatos)


notas sobre cinema (tecnologia)

10/31/13 at 1:23 AM 

De qualquer forma em relação à tua questão dos mapeamentos de conflitos, acho que uma coisa que a guerra civil tem é que foi a mais "mediática" (primeiro grande conflicto moderno coberto por tecnologia audiovisual) das guerras subterrâneas.. ou seja os conflitos surdos: autodeterminação x centralismo. 


questões relacionadas com o cinema, propaganda, impacto da tecnologia:

http://pt.wikipedia.org/wiki/John_Grierson

- ver eisenstein e amigos


cinema espanhol:
https://mubi.com/lists/50-spanish-films





1.6.14






SCW timeline

10/25/13 at 3:49 PM

Algures entre -  reorganizações sociais, disfunções entre produção e distribuição, novos imperialismos ligados à tecnologia, enriquecimentos à bruta, uma certa decadência da aristocracia que perde terreno para uma burguesia poderosa e com ideias, deslocamento simbólico da monarquia - está o terreno fértil para diversas construções ideológicas e relacionado com elas ou não, está também o terreno fértil para a guerra. 

18.5.14

Estudos Hegelianos #1

Houve aqui à anos um profundo e cavo filósofo de além-Reno, que escreveu uma obra sobre a marcha da civilização, do intelecto - o que diríamos, para nos entenderem todos melhor, o Progresso. Descobriu ele que há dois princípios no mundo: o espiritualismo, que marcha sem atender à parte material e terrena desta vida, com os olhos fitos em suas grandes e abstractas teorias, hirto, seco, duro, inflexível, e que pode bem personalizar-se, simbolizar-se pelo famoso mito do Cavaleiro da Mancha, D. Quixote; - o materialismo, que, sem fazer caso nem cabedal dessas teorias, em que não crê e cujas impossíveis aplicações declara todas utopias, pode bem representar-se pela rotunda e anafada presença do nosso amigo velho, Sancho Pança.
 Mas, como na história do malicioso Cervantes, estes dois princípios tão avessos, tão desencontrados, andam contudo juntos sempre, ora um mais atrás, ora outro mais adiante, empecendo-se muitas vezes, coadjuvando-se poucas, mas progredindo sempre.
 E aqui está o que é possível ao progresso humano.
 E eis aqui a crónica do passado, a história do presente, o programa do futuro.
 Hoje o mundo é uma vasta Barataria, em que domina el-rei Sancho.
 Depois há-de vir D.Quixote.
 O Senso comum virá para o milénio: reinado dos filhos de Deus! Está prometido nas divinas promessas.... como el-rei da Prússia prometeu uma constituição; e não faltou ainda, porque ... porque o contrato não tem dia; prometeu mas não disse para quando.
 Ora nesta minha viagem Tejo arriba está simbolizada a marcha do progresso social: espero que o leitor entendesse agora. Tomarei cuidado de lho relembrar de vez em quando, porque receio muito que se esqueça.

Almeida Garrett, Viagens na minha Terra (capítulo II)