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11.8.14

península ibérica

1/15/14 at 4:55 PM 


Tudo isto se mistura com uma relação afectiva em geral.. que não sei explicar muito bem. (again estupada da identidade) Daí vem a península.. a perspectiva, a portugalidade, o facto de gostar do alentejo e continuar a gostar quando se passa a fronteira. Nem quero discutir fronteiras, ou quero, mas não com as cartilhas de sempre. Acho muita graça à relação das pessoas do porto, minho e trás-os-montes com os galegos, talvez seja naif, mas apercebo-me de tantas relações que são de pura empatia.. talvez porque se tratam como regiões e não como países. E o português que se fala na fronteira em trás-os-montes quase não se distingue do galegó-qualquercoisa que se fala pra lá da fronteira. Daí vinha também o interesse em Cambedo da Raia (2º post no blog), podemos falar disso depois. Bom, isto não é para questionar nada, mas é uma espécie de constrangimento por sentir que ali já não me pertence. Uma vez ouvi o frank zappa dizer que não era particularmente patriótico em relação aos estados unidos mas que lhes reconhecia uma vantagem quando comparando com a europa, porque sentia que naquela imensidão de território, podia chegar à outra ponta do continente e continuar a sentir-se em casa e que os franceses olham para os países vizinhos mesmo ao lado e dizem ide-vos foder, isto vale o que vale e é erróneo em parte (então quando começa a aparecer o méxico, esquece) mas pensei que havia de qualquer coisa de curioso na afirmação. Será mesmo a língua a puta da pátria??? Uma grande ibéria seria necessáriamente broken, sim. Mas quero aprofundar os majos e as majas, perceber o que quer o antónio sardinha e de que é feito o nacionalismo português, está-me a interessar a questão basca, nacionalismo fabricado e os bascos que se estão a cagar para españa e para euskadi e andam a patinar ali no meio. E por fim, apetece-me a música, a televisão e os livros e essas coisas na península. Criar legendas..

CNT

o sentido de oportunidade
a institucionalização da estrutura
o pré nomes para as coisas - (playground antes)
o trabalho dos sindicatos
a hist. da cnt
a poética do falhanço


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1/15/14 at 4:55 PM

Eu acho que a cnt criou coisas muito interessantes, identifico-me. Só que a partir daqui queria inverter o exercício e lutar um pouco contra essa identificação, e é um caldo enorme.. aquilo cai tudo aos bocados.  Para começar, sendo uma estrutura anti-poder ganhou imenso poder... e teve que escolher: virar leninista (as in: aproveitar movimentos de base e criar chefias sólidas) ou agoniar com as suas próprias contradições. E foi que aconteceu: agoniou com as suas próprias contradições, porque não era possível outra maneira. O que isso representa para mim é uma fuga na história, é mesmo um gap. Tem um lado absoluto de inaptidão, essa bela palavra. No dia do levantamento, quando o golpe foi travado em Barcelona, o presidente da Generalitat chamou os chefes da cnt e disse: "meus amigos a cidade é vossa, vou bazar" e os gajos recusaram mandar naquilo, parece uma comédia de adolescentes que dizem para eles próprios "bem, nós não queriamos o poder, portanto, agora e quê?..." Claro que toda a pureza ideológica foi ao ar, mas foi de uma maneira disfuncial, bruta, cheia de discussões. Os milicianos não deixavam de disparar mas estavam sempre voltados para trás a opinar sobre a sua organização ...  É um caos. 

7.7.14

Belchite (1)


11/4/13 at 12:39 AM

Bom, ok, Belchite.

Não senti ou percebi reconciliação nenhuma no pouco ou nenhum contacto que tive com as pessoas em Belchite.. Aquela zona fica (para quem vem de zaragoza) depois de um pequeno deserto, no meio do nada e a talvez 10km da vila onde o Goya nasceu (Fuentetodos). É mesmo bonito, e de facto, isso é uma das coisas que eu adoro em Espanha, tem uma paisagem inesperada, conspirativa quase, troca-te as voltas. E porque caraças, é que Belchite toda ela muito mourisca, localizada muito depois de um caminho de cabras pelo meio de calhaus e terra, se torna importante na guerra civil espanhola..?!
Há mesmo qualquer coisa de romântico quando fazes este caminho para ir ver uma ruína.

Depois Belchite, ou melhor, nova Belchite é uma vila (reconstruida ao lado da ruína), pirosa todos os dias, bucólica como nos é familiar, quente (ferve) e há outras coisas sobre as quais se pode construir uma imagem entre o familiar e o estranho: o cão sarnento que se atravessa em diagonal no teu caminho, as moscas moles, a sensação de que os relógios estão a procrastinar, ou imaginares por dois segundos que "ali" deve haver escorpiões. As pessoas parecem suspeitas, ou então, em zonas pesadas e de algum modo silenciosas, tudo parece suspeito!
Na nossa visita guiada (só depois percebemos que era possível invadir as ruinas) havia várias pessoas, essencialmente espanhóis. A nossa guia (sessentona, natural da velha Belchite), cujo pai lutou pelo Frango, explicou-nos um pouco de tudo, havia está claro um discurso tendencioso que irritava o gordinho do grupo que lhe respondia torto. E havia também o outro guia, algures à esquerda, que pelos vistos tinha uma versão mais rigorosa e complexa da história local. Pareceu-me que era bastante dividido. Acho que ali nunca houve reconciliação, o que deve haver é uma relação agastada entre traição e rancor. Aquilo foi completamente massacrado, primeiro pelos republicanos, depois pelos nacionalistas, e de cada lado os devidos expurganços. Mas como é que uma comunidade se recompõe disto?
Na minha ficção pessoal sobre Belchite, o pessoal tem caçadeiras debaixo das mesas de jantar, e se houver a mínima oportunidade, tomam os seus lugares (trincheiras, casas, buracos) e vai de ajustar contas antigas.
É fácil de perceber porquê. Aqui dá-se também o caso comum da pequena escala que replica a grande escala: uma pequena guerra, à escala local, na grande guerra. Belchite era, como seria de esperar uma vila rural, extremamente católica, conservadora e tendencialmente pró Frango. Assim por alto (não aprofundei isto), Belchite fazia parte de um plano ofensivo por parte da republica em direcção a Zaragoza, e mais importante do que avançar nessa direcção, penso que toda a ofensiva era uma medida de diversão para atrair os nacionalistas que se dirigiam para norte, a fim de tomar o país basco, que de resto tomaram na mesma. Foi um derramamento de sangue, como tantos outros, completamente inútil. E Belchite resistiu ferozmente à ocupação republicana. Uma das coisas mais incríveis quando aprofundas estas questões, especialmente com os espanhóis, são as técnicas caseiras e absolutamente rebuscadas de resistencia/rebelião - numa palavra guerrilla (que de resto lixou e bem as tropas napoleónicas durante a guerra peninsular). Os gajos barricaram-se em casa e abriram túneis entre as casas e adegas, armados na medida do possível (porque estavam sozinhos) iam fazendo alguma resistencia (os nacionalistas estavam concentrados em Zaragoza)...Eventualmente os republicanos abriram caminho e a vila cedeu, com um número completamente abusivo de baixas para os próprios republicanos.  Tomam-se as devidas diligencias (fuzilamentos), e enfim Zaragoza nunca é conquistada. Quando Belchite volta ao poder nacionalista (não faço ideia quando, provavelmente mais para o fim da guerra), e depois dos devidos fuzilamentos, o resto dos republicanos são "acomodados" nuns barracões algures perto e obrigados a trabalhar na reconstrução da nova Belchite.  A este espaço, hoje em dia meio abandonado, chamaram carinhosamente de pequeña rusia...




26.1.14




10/25/13 at 3:49 PM

1. Sobre Espanha, Portugal e o colectivo geográficóvirtualíssimo que é a península Ibérica
Passado um tempo de me mudar para Bergen, dei por mim embrenhada numa nostalgia profundamente ibérica (o que é um bocado estúpido, já que nem nós, nem os espanhóis pensamos na península ibérica em termos de colectivo - apesar de termos uma relação geográfica que determinou um passado histórico comum, que traça mais linhas horizontais do que uma fronteira vertical).

Acho que este género de considerações são típicas de quem está fora. Primeiro é uma questão de escala, e depois uma questão de distância e finalmente faz todo o sentido, porque tens tendência para abstractizar a localidade, neste caso Portugal. E claro, dependendo de para onde te deslocas (no meu caso, na Noruega), podes ser sulista, portuguesa, europeia, terceiro-mundista, emigrante ou simplesmente estrangeira, latina, preta, exótica etc. Depois desta ginástica, a tua ideia de nacionalidade (coitadinha) cabe nos sítios mais estúpidos e improváveis.. - o que nos leva outra vez para um sentimento profundamente ibérico, com tudo o que há de despropositado nisso.