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29.11.16




"Passámos em Cadis, depois das barricadas de Dezembro, no momento das guerrilhas e da anarquia liberal. Muita gente morreu nas ruas da cidade, muitos homens tinham seguido nos partidos, e, disperso pelos montes, não haviam voltado ainda. Isto, que não influenciava materialmente a vida da cidade, tirava-lhe contudo alguma coisa do seu impaciente movimento. À noite, porém, as ruas alumiadas claramente, cheias de lojas e de luz, estão apinhadas de gente. As mulheres passam aos grupos, embrulhadas nos mantons, que são ainda o vestuário de Cadis, e às esquinas, imóveis com a lanterna na mão, os "serenos" vigiam.
A um canto de rua, numa casa grande e clara, surpreende-nos um quadro verdadeiramente espanhol: a um balcão alto, recortado, colorido, na abertura das cortinas escuras, molemente abertas sobre um fundo alumiado de sala, destacam-se três figuras femininas. São três mulheres vestidas de negro, conversando, tomando ar, olhando a rua. Nas atitudes, no vestuário, nos tons harmónicos de luz e de sombra, num certo mistério-ambiente, era certamente um quadro dos velhos costumes espanhóis do tempo de Isabel.."

Eça de Queiroz, 1869, in O Egipto e outros textos sobre o médio oriente

20.7.14

Goya, Nacionalismo e Inferno


















 












12/17/13 at 3:29 PM

1- "pão e touros", já te tinha mandado um excerto do panfleto provocatório do León de Arroyal, aqui o surgimento de uma "classe" muito interessante dentro das classes baixas populares , Majos y Majas, as ralés urbanas ultraconservadoras, que vestem fatos exagerados de um folclore tipicamente espanhol que se vai formando (birth of complex lenita). Que nas touradas se vêm representados no matador a pé, que provém da sua estirpe, e que complementa os até então exclusivos toureiros aristocratas (ou assim para o nobre) a cavalo. Os majos e as majas vão passar os domingos em grandes piqueniques nos arrabaldes à saída da urbe e distinguem-se de certas juventudes mais previligiadas influênciadas pelo iluminismo(os pobres, os mesmo da miséria, aparentemente ainda não entram nesta equação), procuram bulhas com eles e chamam-nos "afrancesados".  
2- "eu vi isto", a direita, os monarcóides em geral vão invocar a guerra de independência de 1808 aquando do golpe`36, o 2 de maio, a devastação do napoleão, um caos, e uma vergonha frustrante para um movimento liberal que se vai enterrar à grande. 
«O Dois de Maio de 1808, ocorrido em Madrid, é um dos acontecimentos que mais tem sido interpretado, apropriado e manipulado
historicamente pelos diferentes regimes, partidos e ideologias implicadas no processo de “construção”, definição e consolidação discursiva da nação, da memória colectiva, da identidade e do Estado nacional espanhol.»  (Janete Abrão) 
o nacionalismo(ainda está só a começar) e o tradicionalismo modernos(contrasenso?) vêm daí. E são ilustrações negras dessas contradições que o goya faz.
«A reacção pode implantar-se a partir das alfurjas do estrangeiro, mas nunca a revolução se exporta nas pontas das baionetas.»
3- "disparates", fazendo referência a uma das séries de gravuras brutais do méne (como os desastres e os caprichos), é descrita a descida aos infernos deste período, aos vários infernos, aos interiores, aos metafóricos, aos do imaginário colectivo, ao da guerra imperialista, ao da psicose nacionalista. Uma ligação, talvez forçada, aos subterrâneos ibéricos de que falavas e que procuras (mais uma).
e há muita pintura e gravura a acompanhar isto, claro. e muitas biografias paralelas.
Onde se arruma isto? aqueles caixotes ainda existem? no arquivo mais geral? (memória/arquivo/ficção). Já tens alguma coisa empilhada? 
Ainda não tive tempo de ver uma data de coisas (até algumas que te mandei). Tenho de ver o orlando ribeiro, que  não conheço, geografias sociais parecem interessantes. No outro dia surripiei o "erotismo" da biblioteca de um amigo meu, de maneiras que o tenho aí e vou folheando.. Outras coisas virão. Não sabia nada da "mala de cartão", parece-me óptimo um diálogo com o Brandão.. no mínimo. Promete.  Enfim, tem tudo um ar gostoso..
Em relação ao arquivo, acho que acrescentaria mais dois caixotes ou sub-caixotes: memórias afectivas (nossas) e ensaios/fugas para quando se quiser experimentar um lirismo ou uma condução qualquer. 
Mas pronto, como te disse, não consigo discorrer muito sobre o macro agora, dentro da cabeça. Vou pista a pista... para não me perder.
E é isso, e tu? a quantas andas?
até,
bejo
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PAN Y TOROS
O majo e a maja, que são para o povo espanhol dos anos de 1780 o que o pícaro fora um século mais cedo, o que o incroyable foi para a burguesia de 1800, o que o zazou será para a para a pequena burguesia de 1944, são a encarnação ingénua e pitoresca das contradições e dos sentimentos do povo espanhol de então. Esta bela ovelha ranhosa mai-la companheira são os melhores rapazes e raparigas de certo mundo. Sempre prontos a armar zaragata ou a partir a loiça toda, a ajoelhar-se diante de uma procissão, a gritar: «Viva o rei!», E a achar que a Espanha antiga possuía todas as virtudes, que hoje em dia se perdem. Desconfiam dos filósofos e dos discípulos das luzes, que querem transplantar para Espanha reformas talvez necessárias, mas seguramente estrangeiras. Como os industriais de 1927 iam dançar à rua da Lappe, os grandes senhores de 1780 disfarçam-se de majos de majas, aplaudem no teatro os Sainetes populares de Ramon de la Cruz, caros à gentinha madrilena, recebem em sua casa os toreros e disputam os comediantes.
(...)
EU VI ISTO 
Quando os regicidas de Paris, ao mesmo tempo que a cabeça de um rei, fazem em postas o pilar do feudalismo, a Espanha inteirinha é transportada pela indignação. A guerra que Manuel Godoy declara à República Francesa é uma guerra nacional. São recursos voluntários e o sangue entusiasta do povo que erguem esse exército cujo objectivo é libertar a França do jugo infame da liberdade. Bastam algumas semanas para que esse grande vento caia, que esses recursos se esgotem, e que esse entusiasmo dê lugar ao derrotismo. O próprio Godoy constata: Ninguém aprovava a marcha violênta da Revolução francesa, mas abraçavam-se de boa vontade as teorias que a  tinham produzido; via-se com maus olhos uma cruzada armada para a abafar.  Godoy esse, segue sempre os movimentos que finge dirigir, suspende as despesas, assina em 1795 a paz de Basileia. É em 1798, três anos mais tarde, que Goya pinta o retrato do embaixador de França em Madrid, o ex-regicida Ferdinand Guillemard. O homem que votou a morte do Bourbon de Paris representa a França junto do Bourbon de Madrid. Godoy escreve dessa época: A geração nascente mostrava uma predilecção muito viva pela nova França... sobretudo os jovens da classe intermediária, e alguns das classes priveligiadas. Mesmo em Madrid ...viu-se ...as damas da mais alta nobreza mostrarem-se em público, enfeitadas com fitas tricolores. (...)
 Para Goya e os amigos, nenhuma dúvida: a França revolucionária é a pátria da Liberdade. E continua a sê-lo a seus olhos, quando ela se torna a presa desse pequeno Corso ambicioso, que começa por ser a encarnação da revolução armada, antes de ser a revolução asfixiada. Todas as contradições que vão dilacerar Goya, os amigos, o povo espanhol, vêm daí. As alternâncias entre submissão e revolta, de indiferênça e resistência, que nos chocam em Goya, como em tantos dos seus contemporâneos, existe sobretudo esse conflito latete, ainda mal decifrado por eles, que opõe, na ambiguidade de Bonaparte, a França de 1789 ao Império de 1802. 
A maior parte dos amigos de Goya, para quem a França é pátria das luzes e a conquistadora da liberdade, aderem ao novo regime: Moratin, Melendez, Valdez, Yriarte, Llorente. Goya assiste à sessão da Academia em que Yriarte saúda em José o sábio monarca D. José I (o ingénuo irmão de napoleão que este põe a governar madrid). 
  Jovellanos é mais lúcido. Entreviu imediatamente que a ocupação militar não pode em nenhum caso significar libertação de tiranias. A emancipação social e a presença de soldados estrangeiros são incompatíveis, e o exército dos invasores está às ordens de um rapace. José I bem pode dar-se ares de monarca esclrecido e protector do povo. Napoleão está-se nas tintas para os seus esforços que, em definitivo, servem os seus objectivos. Servem como uma máscara serve um malandrim. José é o "homem de palha" ingénuo do manhoso irmão. Enquanto José abole a Inquisição, decreta a suspensão dos direitos feudais, espadeira no papel as instituições da feudalidade, Napoleão torpedeia tranquilamente os seus esforços fazendo da Espanha uma nação desmantelada, sangrada ao estremo para sustentar o esforço da guerra imperial.  Jovellanos vê claro: Eu não pertenço a um partido, diz ele, mas à santa casa da independência da minha pátria... Poderá José aplicar os belos princípios do rei filósofo a um povo devastado por soldados estrangeiros? A reacção pode implantar-se a partir das alfurjas do estrangeiro, mas nunca a revolução se exporta nas pontas das baionetas.  O exército francês, acolhido pela simpatia passiva ou pela indiferença benevolente do povo espanhol, alguns meses bastam para que apareça como o que sempre foi: um exército inimigo. (...)
OS DISPARATES
William Blake é simplesmente um homem cujos pesadelos são a «projecção» das paisagens industriais da Inglaterra do seu tempo, cujo inferno, como o demonstrou o crítico inglês Klingender, é directamente inspirado pelas fábricas infernais em que penavam os operários de Manchester. O autor de Cantos da inocência e de experiência é um demente perfeitamente razoável.  (...)
Quando pinta o inferno, é porque é contemporâneo do inferno. Mas Blake é um grande poeta, e um desenhador medíocre. E, no entrelaçado das suas contradições e quimeras, nessa mistura singular de espírito revolucionário e alucinação metódica, há qualquer coisa que faz dele o contemporâneo de alma e data do velho surdo. Goya podia escrever, à margem dos seus pesadelos nocturnos e sob as suas visões de guerra: Eu vi isto. E Goya, sem dúvida mais por prudência de que por descuido, omitiu pôr legendas a muitos dos Disparates, essas legendas existem de antemão: são os Provérbios do inferno de Blake: Se o louco persistisse na sua loucura dava em sábio...  As prisões são construídas com as pedras da religião...  A alegria engendra, a dor traz ao mundo...   O que é fraco pela coragem é forte pela manha...  O ar está para a ave, ou o mar para o peixe, como o desprezo está para o desprezível...  Os tigres da cólera são mais sábios que os cavalos da instrução. (...)
Os Disparates são a descida aos infernos de Goya. Ele vem de lá. Sabe que o inferno é a estupidez, e que a estupidez é tirania. Os demónios de Goya terão uma posteridade directa. Nas litografias que Delacroix, fascinado por Goya, consagra ao Fausto de Goethe, tornamos a encontrar esses monstros agachados na sombra que, de Théophile Gautier a Baudelaire, resumiam para o romantismo a mensagem de Goya. Porém, ao lado das criaturas abissais de Goya, os monstros de Delacroix são reconstituições arqueológicas, como as gárgulas que Viollet-le-Duc acrescenta à Notre-Dame. Não passam de «monos» divertidos e pitorescos. Ao passo que, para Goya, os monstros são realidade. À margem de uma gravura dos Caprichos, escreveu: Os demónios são os que fazem mal impedindo os outros  de fazer bem, ou não fazem coisa nenhuma. (Esta gravura dos Caprinhos representa dois monges caricaturais, empaturrando-se complacentemente).
 Realidade, os demónios eram-no para Bosch ao qual os Disparates impõem a referência, e antes de mais pelo título, que Goya pede emprestado aos críticos espanhóis de El Bosco. Eram-no com uma precisão, um rigor que Goya, de certo, não tem. (...)
E, ao termo dos Disparates, a subida dos Infernos também é uma ascensão do animal para o homem, vitória do espírito sobre as bestas que grunhem nas pregas da humanidade desfeita.
Porque Goya sobe dos infernos. É muito belo que os Disparates terminem com uma gravura que dir-se-ia o par exacto, e o contraponto, de uma das tábuas precedentes, esse «Disparate de tontos», disparate dos imbecis em que cinco touros enlouquecidos são projectados no espaço sideral. A última tábua dos Disparates não é horrível, nem talvez tão obscura, como se poderia julgar. Os cinco homens voadores de Goya, musculados, de capacete, planando num céu soberano, não são vítimas precipitadas nos abismos, mas ícaros vencedores, dominando a gravidade que faz cair nas profundezas as bestas desamparadas.  (...)

21.1.14

Carta aos meus filhos sobre os fuzilamentos de goya





Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso. 
É possível, porque tudo é possível, que ele seja aquele que eu desejo para vós. Um simples mundo, onde tudo tenha apenas a dificuldade que advém de nada haver que não seja simples e natural. Um mundo em que tudo seja permitido, conforme o vosso gosto, o vosso anseio, o vosso prazer, o vosso respeito pelos outros, o respeito dos outros por vós. E é possível que não seja isto, nem seja sequer isto o que vos interesse para viver. Tudo é possível, ainda quando lutemos, como devemos lutar, por quanto nos pareça a liberdade e a justiça, ou mais que qualquer delas uma fiel dedicação à honra de estar vivo. Um dia sabereis que mais que a humanidade não tem conta o número dos que pensaram assim, amaram o seu semelhante no que ele tinha de único, de insólito, de livre, de diferente, e foram sacrificados, torturados, espancados, e entregues hipocritamente â secular justiça, para que os liquidasse «com suma piedade e sem efusão de sangue.» Por serem fiéis a um deus, a um pensamento, a uma pátria, uma esperança, ou muito apenas à fome irrespondível que lhes roía as entranhas, foram estripados, esfolados, queimados, gaseados, e os seus corpos amontoados tão anonimamente quanto haviam vivido, ou suas cinzas dispersas para que delas não restasse memória. Às vezes, por serem de uma raça, outras por serem de urna classe, expiaram todos os erros que não tinham cometido ou não tinham consciência de haver cometido. Mas também aconteceu e acontece que não foram mortos. Houve sempre infinitas maneiras de prevalecer, aniquilando mansamente, delicadamente, por ínvios caminhos quais se diz que são ínvios os de Deus. Estes fuzilamentos, este heroísmo, este horror, foi uma coisa, entre mil, acontecida em Espanha há mais de um século e que por violenta e injusta ofendeu o coração de um pintor chamado Goya, que tinha um coração muito grande, cheio de fúria e de amor. Mas isto nada é, meus filhos. Apenas um episódio, um episódio breve, nesta cadela de que sois um elo (ou não sereis) de ferro e de suor e sangue e algum sémen a caminho do mundo que vos sonho. Acreditai que nenhum mundo, que nada nem ninguém vale mais que uma vida ou a alegria de té-la. É isto o que mais importa - essa alegria. Acreditai que a dignidade em que hão-de falar-vos tanto não é senão essa alegria que vem de estar-se vivo e sabendo que nenhuma vez alguém está menos vivo ou sofre ou morre para que um só de vós resista um pouco mais à morte que é de todos e virá. Que tudo isto sabereis serenamente, sem culpas a ninguém, sem terror, sem ambição, e sobretudo sem desapego ou indiferença, ardentemente espero. Tanto sangue, tanta dor, tanta angústia, um dia - mesmo que o tédio de um mundo feliz vos persiga - não hão-de ser em vão. Confesso que multas vezes, pensando no horror de tantos séculos de opressão e crueldade, hesito por momentos e uma amargura me submerge inconsolável. Serão ou não em vão? Mas, mesmo que o não sejam, quem ressuscita esses milhões, quem restitui não só a vida, mas tudo o que lhes foi tirado? Nenhum Juízo Final, meus filhos, pode dar-lhes aquele instante que não viveram, aquele objecto que não fruíram, aquele gesto de amor, que fariam «amanhã». E. por isso, o mesmo mundo que criemos nos cumpre tê-lo com cuidado, como coisa que não é nossa, que nos é cedida para a guardarmos respeitosamente em memória do sangue que nos corre nas veias, da nossa carne que foi outra, do amor que outros não amaram porque lho roubaram.

Jorge de Sena