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5.12.16


mocidade portuguesa feminina 

13.maio.1939



29.11.16




"Passámos em Cadis, depois das barricadas de Dezembro, no momento das guerrilhas e da anarquia liberal. Muita gente morreu nas ruas da cidade, muitos homens tinham seguido nos partidos, e, disperso pelos montes, não haviam voltado ainda. Isto, que não influenciava materialmente a vida da cidade, tirava-lhe contudo alguma coisa do seu impaciente movimento. À noite, porém, as ruas alumiadas claramente, cheias de lojas e de luz, estão apinhadas de gente. As mulheres passam aos grupos, embrulhadas nos mantons, que são ainda o vestuário de Cadis, e às esquinas, imóveis com a lanterna na mão, os "serenos" vigiam.
A um canto de rua, numa casa grande e clara, surpreende-nos um quadro verdadeiramente espanhol: a um balcão alto, recortado, colorido, na abertura das cortinas escuras, molemente abertas sobre um fundo alumiado de sala, destacam-se três figuras femininas. São três mulheres vestidas de negro, conversando, tomando ar, olhando a rua. Nas atitudes, no vestuário, nos tons harmónicos de luz e de sombra, num certo mistério-ambiente, era certamente um quadro dos velhos costumes espanhóis do tempo de Isabel.."

Eça de Queiroz, 1869, in O Egipto e outros textos sobre o médio oriente

11.8.14

península ibérica

1/15/14 at 4:55 PM 


Tudo isto se mistura com uma relação afectiva em geral.. que não sei explicar muito bem. (again estupada da identidade) Daí vem a península.. a perspectiva, a portugalidade, o facto de gostar do alentejo e continuar a gostar quando se passa a fronteira. Nem quero discutir fronteiras, ou quero, mas não com as cartilhas de sempre. Acho muita graça à relação das pessoas do porto, minho e trás-os-montes com os galegos, talvez seja naif, mas apercebo-me de tantas relações que são de pura empatia.. talvez porque se tratam como regiões e não como países. E o português que se fala na fronteira em trás-os-montes quase não se distingue do galegó-qualquercoisa que se fala pra lá da fronteira. Daí vinha também o interesse em Cambedo da Raia (2º post no blog), podemos falar disso depois. Bom, isto não é para questionar nada, mas é uma espécie de constrangimento por sentir que ali já não me pertence. Uma vez ouvi o frank zappa dizer que não era particularmente patriótico em relação aos estados unidos mas que lhes reconhecia uma vantagem quando comparando com a europa, porque sentia que naquela imensidão de território, podia chegar à outra ponta do continente e continuar a sentir-se em casa e que os franceses olham para os países vizinhos mesmo ao lado e dizem ide-vos foder, isto vale o que vale e é erróneo em parte (então quando começa a aparecer o méxico, esquece) mas pensei que havia de qualquer coisa de curioso na afirmação. Será mesmo a língua a puta da pátria??? Uma grande ibéria seria necessáriamente broken, sim. Mas quero aprofundar os majos e as majas, perceber o que quer o antónio sardinha e de que é feito o nacionalismo português, está-me a interessar a questão basca, nacionalismo fabricado e os bascos que se estão a cagar para españa e para euskadi e andam a patinar ali no meio. E por fim, apetece-me a música, a televisão e os livros e essas coisas na península. Criar legendas..

14.7.14

O Garrote Vil :: espicificidades locais, terrenos acidentados


11/28/13 at 9:31 PM
Próxima: não vou ter tempo agora de discorrer muito sobre o assunto mas, em 20 de dezembro de 1973 a ETA (quando a ETA era boa eheheh) assassinou o nº 2 do Franco, Carrero Blanco, a vingança foi implacável, e apanhados 4 suspeitos (1 ano e coisa mais tarde) foram julgados sumariamente e executados. Num sítio qualquer li que tinham sido executados pelogarrote, medieval style, mas penso que não é verdade (oooohh) foram antes fuzilados, o que já de si...
Esta execução lançou uma onda de indignação e manifestações de apoio aos etarras em várias capitais europeias. Em Lisboa, em plena crispação de PREC, no dia 27 de Setembro de 1975, dois meses antes do 25 de Novembro, uma camabada invadiu, destruíu e incendiou a embaixada de espanha (Palácio de Palhavã) como retaliação... entraram por ali a dentro e até destruíram uns quantos óleos valiosíssimos do embaixador, tipo: Velazquez e cenas do género. Catrapshhhh!!!!... (adorava saber que quadros eram ao certo) 
É um episódio com pouca info em geral... subterrâneo.
em anexo: dois stills de um vídeo.



























Salvador Puig, o ultimo executado pelo Garrote Vil




propaganda das duas ditaduras ibéricas

e agora é que vêm as belezas, 2 filmes "irmãos" de programa:
Raza, com guião do Generalíssimo http://www.youtube.com/watch?v=XXxximSiqyg
e A Revolução de Maio 
(Assumido filme de propaganda política e apologia de Salazar e do Estado Novo, foi pensado em parceria com António Ferro, responsável então pelo SPN - Secretariado da Propaganda Nacional.) http://www.youtube.com/watch?v=bfwfEYBTxnU

Franco e Salazar (doc canal história): https://www.youtube.com/watch?v=4Q1UNwzxNiQ

21.1.14

Carta aos meus filhos sobre os fuzilamentos de goya





Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso. 
É possível, porque tudo é possível, que ele seja aquele que eu desejo para vós. Um simples mundo, onde tudo tenha apenas a dificuldade que advém de nada haver que não seja simples e natural. Um mundo em que tudo seja permitido, conforme o vosso gosto, o vosso anseio, o vosso prazer, o vosso respeito pelos outros, o respeito dos outros por vós. E é possível que não seja isto, nem seja sequer isto o que vos interesse para viver. Tudo é possível, ainda quando lutemos, como devemos lutar, por quanto nos pareça a liberdade e a justiça, ou mais que qualquer delas uma fiel dedicação à honra de estar vivo. Um dia sabereis que mais que a humanidade não tem conta o número dos que pensaram assim, amaram o seu semelhante no que ele tinha de único, de insólito, de livre, de diferente, e foram sacrificados, torturados, espancados, e entregues hipocritamente â secular justiça, para que os liquidasse «com suma piedade e sem efusão de sangue.» Por serem fiéis a um deus, a um pensamento, a uma pátria, uma esperança, ou muito apenas à fome irrespondível que lhes roía as entranhas, foram estripados, esfolados, queimados, gaseados, e os seus corpos amontoados tão anonimamente quanto haviam vivido, ou suas cinzas dispersas para que delas não restasse memória. Às vezes, por serem de uma raça, outras por serem de urna classe, expiaram todos os erros que não tinham cometido ou não tinham consciência de haver cometido. Mas também aconteceu e acontece que não foram mortos. Houve sempre infinitas maneiras de prevalecer, aniquilando mansamente, delicadamente, por ínvios caminhos quais se diz que são ínvios os de Deus. Estes fuzilamentos, este heroísmo, este horror, foi uma coisa, entre mil, acontecida em Espanha há mais de um século e que por violenta e injusta ofendeu o coração de um pintor chamado Goya, que tinha um coração muito grande, cheio de fúria e de amor. Mas isto nada é, meus filhos. Apenas um episódio, um episódio breve, nesta cadela de que sois um elo (ou não sereis) de ferro e de suor e sangue e algum sémen a caminho do mundo que vos sonho. Acreditai que nenhum mundo, que nada nem ninguém vale mais que uma vida ou a alegria de té-la. É isto o que mais importa - essa alegria. Acreditai que a dignidade em que hão-de falar-vos tanto não é senão essa alegria que vem de estar-se vivo e sabendo que nenhuma vez alguém está menos vivo ou sofre ou morre para que um só de vós resista um pouco mais à morte que é de todos e virá. Que tudo isto sabereis serenamente, sem culpas a ninguém, sem terror, sem ambição, e sobretudo sem desapego ou indiferença, ardentemente espero. Tanto sangue, tanta dor, tanta angústia, um dia - mesmo que o tédio de um mundo feliz vos persiga - não hão-de ser em vão. Confesso que multas vezes, pensando no horror de tantos séculos de opressão e crueldade, hesito por momentos e uma amargura me submerge inconsolável. Serão ou não em vão? Mas, mesmo que o não sejam, quem ressuscita esses milhões, quem restitui não só a vida, mas tudo o que lhes foi tirado? Nenhum Juízo Final, meus filhos, pode dar-lhes aquele instante que não viveram, aquele objecto que não fruíram, aquele gesto de amor, que fariam «amanhã». E. por isso, o mesmo mundo que criemos nos cumpre tê-lo com cuidado, como coisa que não é nossa, que nos é cedida para a guardarmos respeitosamente em memória do sangue que nos corre nas veias, da nossa carne que foi outra, do amor que outros não amaram porque lho roubaram.

Jorge de Sena

Os Salteadores




Os Salteadores, uma animação de Abi Feijó a partir de um conto de Jorge de Sena. A ver se encontro isso n´algum livro...  (toca os assuntos de Cambedo e similares, muito antes de se falar disso...)

Encontrei um artigo sobre o Sena para me afinfar já ao mapa de afinidades e empatias penisulares.