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21.12.16


*****antropoceno*****

(wiki..)



Antropoceno é um termo usado por alguns cientistas para descrever o período mais recente na história do Planeta Terra. Ainda não há data de início precisa e oficialmente apontada, mas muitos consideram que começa no final do Século XVIII, quando as atividades humanas começaram a ter um impacto global significativo no clima da Terra e no funcionamento dos seus ecossistemas. Esta data coincide com a aprimoração do Motor a vapor por James Watt em 1784. Outros cientistas consideram que o Antropoceno começa mais cedo, como por exemplo no advento da agricultura. As tentativas de datação precisa revelam, porém, o problema do necessário distanciamento histórico na ponderação de eventos e grandezas relevantes para a escala de tempo geológico. Um hipotético observador distanciado milhões de anos no futuro poderá, munido de suficiente informação, melhor determinar uma data e uma tipologia para o Antropoceno. Perante o alcance das consequências da ação do Homem na evolução do Planeta Terra, o Antropoceno poderá ser reconhecido e classificado, por exemplo, como um novo período ou era geológica. Nesta perspectiva mais lacta é plausível apontar o seu início a partir do surgimento do Homo sapiens.

mais

5.8.14

* Reforma protestante (Inferno 1)

01/01/14 04:36 PM
 
Isto é mesmo uma nota de roda pé, mas faz uma diferença em termos culturais, e é mesmo visível entre países nórdicos e sulistas. Quando o M. Luther inicia a reforma protestante (algures no séc xvi), uma coisa fenomenal acontece, que é o levantamento da culpa em relação à acumulação de riqueza e a introdução de uma espécie de dever. Se fizeres o teu "dever" (trabalho), mereces ser rico (és abençoado), e portanto já não estás em pecado e portanto já não vais arder no inferno por toda a eternidade (o que é mais simpático). Isto é doutrinal, claro, na prática a coisa é mais complexa. Este levantamento da culpa (uma verdadeira sofisticação do sistema), cria uma certa paridade entre os "crentes", e muda a relação com o trabalho e com o dinheiro (que segundo o Max Weber - que eu nunca li - é uma das direcções para o capitalismo). A outra coisa fenomenal que o M. Luther vai fazer é a tradução da bíblia do latim para o alemão corrente, a "democratização" do texto sagrado..e aqui quebra-se também o mistério, o maravilhoso da coisa (que está profundamente ligado à ignorância), e com isto os horrores do inferno, a penalização e muito desse imaginário. É mesmo diferente o inferno do norte, do inferno do sul, por exemplo..à mon avis este tipo de questões, que estão completamente embrenhadas no tecido cultural, definem espaços imaginários e contra-campos. Vou dizer isto outra vez: a ibéria tem um inferno/hades/isso do caraças..no geral, o mediterraneo.

20.7.14

Goya, Nacionalismo e Inferno


















 












12/17/13 at 3:29 PM

1- "pão e touros", já te tinha mandado um excerto do panfleto provocatório do León de Arroyal, aqui o surgimento de uma "classe" muito interessante dentro das classes baixas populares , Majos y Majas, as ralés urbanas ultraconservadoras, que vestem fatos exagerados de um folclore tipicamente espanhol que se vai formando (birth of complex lenita). Que nas touradas se vêm representados no matador a pé, que provém da sua estirpe, e que complementa os até então exclusivos toureiros aristocratas (ou assim para o nobre) a cavalo. Os majos e as majas vão passar os domingos em grandes piqueniques nos arrabaldes à saída da urbe e distinguem-se de certas juventudes mais previligiadas influênciadas pelo iluminismo(os pobres, os mesmo da miséria, aparentemente ainda não entram nesta equação), procuram bulhas com eles e chamam-nos "afrancesados".  
2- "eu vi isto", a direita, os monarcóides em geral vão invocar a guerra de independência de 1808 aquando do golpe`36, o 2 de maio, a devastação do napoleão, um caos, e uma vergonha frustrante para um movimento liberal que se vai enterrar à grande. 
«O Dois de Maio de 1808, ocorrido em Madrid, é um dos acontecimentos que mais tem sido interpretado, apropriado e manipulado
historicamente pelos diferentes regimes, partidos e ideologias implicadas no processo de “construção”, definição e consolidação discursiva da nação, da memória colectiva, da identidade e do Estado nacional espanhol.»  (Janete Abrão) 
o nacionalismo(ainda está só a começar) e o tradicionalismo modernos(contrasenso?) vêm daí. E são ilustrações negras dessas contradições que o goya faz.
«A reacção pode implantar-se a partir das alfurjas do estrangeiro, mas nunca a revolução se exporta nas pontas das baionetas.»
3- "disparates", fazendo referência a uma das séries de gravuras brutais do méne (como os desastres e os caprichos), é descrita a descida aos infernos deste período, aos vários infernos, aos interiores, aos metafóricos, aos do imaginário colectivo, ao da guerra imperialista, ao da psicose nacionalista. Uma ligação, talvez forçada, aos subterrâneos ibéricos de que falavas e que procuras (mais uma).
e há muita pintura e gravura a acompanhar isto, claro. e muitas biografias paralelas.
Onde se arruma isto? aqueles caixotes ainda existem? no arquivo mais geral? (memória/arquivo/ficção). Já tens alguma coisa empilhada? 
Ainda não tive tempo de ver uma data de coisas (até algumas que te mandei). Tenho de ver o orlando ribeiro, que  não conheço, geografias sociais parecem interessantes. No outro dia surripiei o "erotismo" da biblioteca de um amigo meu, de maneiras que o tenho aí e vou folheando.. Outras coisas virão. Não sabia nada da "mala de cartão", parece-me óptimo um diálogo com o Brandão.. no mínimo. Promete.  Enfim, tem tudo um ar gostoso..
Em relação ao arquivo, acho que acrescentaria mais dois caixotes ou sub-caixotes: memórias afectivas (nossas) e ensaios/fugas para quando se quiser experimentar um lirismo ou uma condução qualquer. 
Mas pronto, como te disse, não consigo discorrer muito sobre o macro agora, dentro da cabeça. Vou pista a pista... para não me perder.
E é isso, e tu? a quantas andas?
até,
bejo
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PAN Y TOROS
O majo e a maja, que são para o povo espanhol dos anos de 1780 o que o pícaro fora um século mais cedo, o que o incroyable foi para a burguesia de 1800, o que o zazou será para a para a pequena burguesia de 1944, são a encarnação ingénua e pitoresca das contradições e dos sentimentos do povo espanhol de então. Esta bela ovelha ranhosa mai-la companheira são os melhores rapazes e raparigas de certo mundo. Sempre prontos a armar zaragata ou a partir a loiça toda, a ajoelhar-se diante de uma procissão, a gritar: «Viva o rei!», E a achar que a Espanha antiga possuía todas as virtudes, que hoje em dia se perdem. Desconfiam dos filósofos e dos discípulos das luzes, que querem transplantar para Espanha reformas talvez necessárias, mas seguramente estrangeiras. Como os industriais de 1927 iam dançar à rua da Lappe, os grandes senhores de 1780 disfarçam-se de majos de majas, aplaudem no teatro os Sainetes populares de Ramon de la Cruz, caros à gentinha madrilena, recebem em sua casa os toreros e disputam os comediantes.
(...)
EU VI ISTO 
Quando os regicidas de Paris, ao mesmo tempo que a cabeça de um rei, fazem em postas o pilar do feudalismo, a Espanha inteirinha é transportada pela indignação. A guerra que Manuel Godoy declara à República Francesa é uma guerra nacional. São recursos voluntários e o sangue entusiasta do povo que erguem esse exército cujo objectivo é libertar a França do jugo infame da liberdade. Bastam algumas semanas para que esse grande vento caia, que esses recursos se esgotem, e que esse entusiasmo dê lugar ao derrotismo. O próprio Godoy constata: Ninguém aprovava a marcha violênta da Revolução francesa, mas abraçavam-se de boa vontade as teorias que a  tinham produzido; via-se com maus olhos uma cruzada armada para a abafar.  Godoy esse, segue sempre os movimentos que finge dirigir, suspende as despesas, assina em 1795 a paz de Basileia. É em 1798, três anos mais tarde, que Goya pinta o retrato do embaixador de França em Madrid, o ex-regicida Ferdinand Guillemard. O homem que votou a morte do Bourbon de Paris representa a França junto do Bourbon de Madrid. Godoy escreve dessa época: A geração nascente mostrava uma predilecção muito viva pela nova França... sobretudo os jovens da classe intermediária, e alguns das classes priveligiadas. Mesmo em Madrid ...viu-se ...as damas da mais alta nobreza mostrarem-se em público, enfeitadas com fitas tricolores. (...)
 Para Goya e os amigos, nenhuma dúvida: a França revolucionária é a pátria da Liberdade. E continua a sê-lo a seus olhos, quando ela se torna a presa desse pequeno Corso ambicioso, que começa por ser a encarnação da revolução armada, antes de ser a revolução asfixiada. Todas as contradições que vão dilacerar Goya, os amigos, o povo espanhol, vêm daí. As alternâncias entre submissão e revolta, de indiferênça e resistência, que nos chocam em Goya, como em tantos dos seus contemporâneos, existe sobretudo esse conflito latete, ainda mal decifrado por eles, que opõe, na ambiguidade de Bonaparte, a França de 1789 ao Império de 1802. 
A maior parte dos amigos de Goya, para quem a França é pátria das luzes e a conquistadora da liberdade, aderem ao novo regime: Moratin, Melendez, Valdez, Yriarte, Llorente. Goya assiste à sessão da Academia em que Yriarte saúda em José o sábio monarca D. José I (o ingénuo irmão de napoleão que este põe a governar madrid). 
  Jovellanos é mais lúcido. Entreviu imediatamente que a ocupação militar não pode em nenhum caso significar libertação de tiranias. A emancipação social e a presença de soldados estrangeiros são incompatíveis, e o exército dos invasores está às ordens de um rapace. José I bem pode dar-se ares de monarca esclrecido e protector do povo. Napoleão está-se nas tintas para os seus esforços que, em definitivo, servem os seus objectivos. Servem como uma máscara serve um malandrim. José é o "homem de palha" ingénuo do manhoso irmão. Enquanto José abole a Inquisição, decreta a suspensão dos direitos feudais, espadeira no papel as instituições da feudalidade, Napoleão torpedeia tranquilamente os seus esforços fazendo da Espanha uma nação desmantelada, sangrada ao estremo para sustentar o esforço da guerra imperial.  Jovellanos vê claro: Eu não pertenço a um partido, diz ele, mas à santa casa da independência da minha pátria... Poderá José aplicar os belos princípios do rei filósofo a um povo devastado por soldados estrangeiros? A reacção pode implantar-se a partir das alfurjas do estrangeiro, mas nunca a revolução se exporta nas pontas das baionetas.  O exército francês, acolhido pela simpatia passiva ou pela indiferença benevolente do povo espanhol, alguns meses bastam para que apareça como o que sempre foi: um exército inimigo. (...)
OS DISPARATES
William Blake é simplesmente um homem cujos pesadelos são a «projecção» das paisagens industriais da Inglaterra do seu tempo, cujo inferno, como o demonstrou o crítico inglês Klingender, é directamente inspirado pelas fábricas infernais em que penavam os operários de Manchester. O autor de Cantos da inocência e de experiência é um demente perfeitamente razoável.  (...)
Quando pinta o inferno, é porque é contemporâneo do inferno. Mas Blake é um grande poeta, e um desenhador medíocre. E, no entrelaçado das suas contradições e quimeras, nessa mistura singular de espírito revolucionário e alucinação metódica, há qualquer coisa que faz dele o contemporâneo de alma e data do velho surdo. Goya podia escrever, à margem dos seus pesadelos nocturnos e sob as suas visões de guerra: Eu vi isto. E Goya, sem dúvida mais por prudência de que por descuido, omitiu pôr legendas a muitos dos Disparates, essas legendas existem de antemão: são os Provérbios do inferno de Blake: Se o louco persistisse na sua loucura dava em sábio...  As prisões são construídas com as pedras da religião...  A alegria engendra, a dor traz ao mundo...   O que é fraco pela coragem é forte pela manha...  O ar está para a ave, ou o mar para o peixe, como o desprezo está para o desprezível...  Os tigres da cólera são mais sábios que os cavalos da instrução. (...)
Os Disparates são a descida aos infernos de Goya. Ele vem de lá. Sabe que o inferno é a estupidez, e que a estupidez é tirania. Os demónios de Goya terão uma posteridade directa. Nas litografias que Delacroix, fascinado por Goya, consagra ao Fausto de Goethe, tornamos a encontrar esses monstros agachados na sombra que, de Théophile Gautier a Baudelaire, resumiam para o romantismo a mensagem de Goya. Porém, ao lado das criaturas abissais de Goya, os monstros de Delacroix são reconstituições arqueológicas, como as gárgulas que Viollet-le-Duc acrescenta à Notre-Dame. Não passam de «monos» divertidos e pitorescos. Ao passo que, para Goya, os monstros são realidade. À margem de uma gravura dos Caprichos, escreveu: Os demónios são os que fazem mal impedindo os outros  de fazer bem, ou não fazem coisa nenhuma. (Esta gravura dos Caprinhos representa dois monges caricaturais, empaturrando-se complacentemente).
 Realidade, os demónios eram-no para Bosch ao qual os Disparates impõem a referência, e antes de mais pelo título, que Goya pede emprestado aos críticos espanhóis de El Bosco. Eram-no com uma precisão, um rigor que Goya, de certo, não tem. (...)
E, ao termo dos Disparates, a subida dos Infernos também é uma ascensão do animal para o homem, vitória do espírito sobre as bestas que grunhem nas pregas da humanidade desfeita.
Porque Goya sobe dos infernos. É muito belo que os Disparates terminem com uma gravura que dir-se-ia o par exacto, e o contraponto, de uma das tábuas precedentes, esse «Disparate de tontos», disparate dos imbecis em que cinco touros enlouquecidos são projectados no espaço sideral. A última tábua dos Disparates não é horrível, nem talvez tão obscura, como se poderia julgar. Os cinco homens voadores de Goya, musculados, de capacete, planando num céu soberano, não são vítimas precipitadas nos abismos, mas ícaros vencedores, dominando a gravidade que faz cair nas profundezas as bestas desamparadas.  (...)

14.7.14

Lembrete dicionário crítico Bataille

11/29/13 at 1:41 AM 
Ibéria. Está bem.  A nossa querida Ibéria está engalfinhada nos outros assuntos até às orelhas... Quando pegar no outro email, posso-te dizer o que penso sobre isso, não é nada cientifico. Mas posso dizer isto já: há um ano atrás comecei uma série de pequenas filmagens (quadros na verdade), baseadas precisamente no dicionário crítico do Bataille (na lógica), e a minha primeira definição era, claro, a Ibéria (heheeh tem medo Josias, tem muito medo!), e há mais ibérias agarradas a este diálogo, no fundo é mesmo o que disseste algures, mais tarde ou mais cedo a discussão vai ter que cair lá, é inevitável. Portanto, deixa ver..temos 3 caixotes, um subterraneo e um destino. Faz sentido?

Bataille é muito bom! Há mais gajos metidos no dicionário crítico (que aparece na documents nos anos 20 ou 30, com o C. einstein e o M. leiris e mais não sei quem, se calhar na bbc-4 encontra-se qq coisa sobre isso) -  a documents tem muito que se lhe diga..

O Garrote Vil :: espicificidades locais, terrenos acidentados


11/28/13 at 9:31 PM
Próxima: não vou ter tempo agora de discorrer muito sobre o assunto mas, em 20 de dezembro de 1973 a ETA (quando a ETA era boa eheheh) assassinou o nº 2 do Franco, Carrero Blanco, a vingança foi implacável, e apanhados 4 suspeitos (1 ano e coisa mais tarde) foram julgados sumariamente e executados. Num sítio qualquer li que tinham sido executados pelogarrote, medieval style, mas penso que não é verdade (oooohh) foram antes fuzilados, o que já de si...
Esta execução lançou uma onda de indignação e manifestações de apoio aos etarras em várias capitais europeias. Em Lisboa, em plena crispação de PREC, no dia 27 de Setembro de 1975, dois meses antes do 25 de Novembro, uma camabada invadiu, destruíu e incendiou a embaixada de espanha (Palácio de Palhavã) como retaliação... entraram por ali a dentro e até destruíram uns quantos óleos valiosíssimos do embaixador, tipo: Velazquez e cenas do género. Catrapshhhh!!!!... (adorava saber que quadros eram ao certo) 
É um episódio com pouca info em geral... subterrâneo.
em anexo: dois stills de um vídeo.



























Salvador Puig, o ultimo executado pelo Garrote Vil




23.5.14

o gosto recorrente de dançar com mortos

1909


Tragic Week (end of July 1909)















The young barbarians (jóvenes bárbaros) who supported the Radical Party leader Alejandro Lerroux went wild and outhers followed, with church burning and forms of desecration such as the famous incident of a worker dancing with a desinterred nun. Such symbolic violence was the reaction of a people traumatized by intense superstition. much of the teaching of the Spanish Catholic Church sounded appropriate to the Dark Ages and this mental repression, together with the political role played by ecclesiastical authorities, made the Church rank with the civil guard as the first target of an uprising. Some half a dozen people were killed during this disturbance, but when the army arrived to restore order there was a massacre.
(Beevor) 


1936


Toledo, 1936
























Toledo, 1936




































The Spanish war saw many terrible acts, but it was those of a religious significance that tended to prevail in people´s minds: "reds" killing priests and disinterring the mummies in convent vauls; it was even said that Dolores Ibárruri; La Pasionaria, had bitten the jugular of a priest; or Carlist requetés making a republican lie in the form of a cross before hacking off his limbs to the cry of "Viva Cristo Rey!!!".
  If people in other countries were reminded of the Thirty Years´War, or the religious persecutions of the Dark Ages, and shuddered at this "new barbarism", it was not surprising. The slaughter did not follow the same pattern on each side. In nationalist territory the relentless purging of "reds and atheists" was to continue for years, while in the republican territory the worst of the violence was mainly a sudden and quicky spent reaction of suppressed fear, exacerbated by desires of revenge for the past. 
  The attackson the clergy were bound to cause the greatest stir abroad, where there was little understanding of the Church´s powerfull political role. The Catholic Church was the bulwark of the country´s conservative forces, the foundation of what the right defined as Spanish civilization . Not surprisingly, the outside world had a fixed impression of Spain as a deeply religious country. The jest of the Basque philosopher Unamuno, that in Spain even atheists were Catholic, was taken seriously. Centuries of fanaticak superstition enforced by Inquisition had engraved this image on European minds. Even so it was surprising how few foreign newspapers made the connection between the religious repression dating back to the Middle Ages and the violent anti-clericalism that developed in the nineteenth century. The rage wich led to such excesses in some areas was fired by one great conviction: the promise of heaven for the meek was the age-old trick by the rich and powerful to make the poor accept their lot on earth. For the anarchists, at least, the Church represented nothing less than the psychological operations branch of the state. As such it was a target which ranked in importance with the Civil Guard. (...)
  The most sensational item of propaganda in the world press  involved the raping of nuns, yet the detailed nationalistic indictment of republican crimes published in 1946 offers no evidence for such incident, while hinting at only one. 
  There were certainly occasions when wanton cruelty was inflicted on priests bedore they died, particularly in Aragón, Catalonia and Valencia. Some were burned to death in their churches and there are reports of castration and disembowelment, and that some were buried alive after being made to dig their own graves. Many more churches were set alight and vandalized . Copes were used for mock bullfights in the street. A republican who dressed himself in the archbishop of Toledo´s ceremonial garnments as a joke was nearly shot by a drunken miliciano who mistook him for the primate. Communion wine was drunk out of chalices, stain-glass windows were broken and militiamen shaved in the fonts.  (...)
  The killing of the clergy was far from universal and with the exception of the Basque country, where the church was untouched, there was no marked regional pattern. In depressed areas the priests were often as poverty-stricken and ill-educated as their ill- parishioners. Those who had taken as much trouble over burying the poor as the rich were often spared. 

(Beevor)

15.2.14

sobre a hispanidade de El Greco



 (...) Por maioria de razão não se pode reduzir El Greco à sua hispanidade. Até aos últimos anos, quase todas as histórias da pintura espanhola, mesmo quando se davam ao ridículo de remontar até às cavernas de Altamira, despachavam em quatro páginas tudo o que precedia Berruguete. A pintura espanhola interessava os especialistas apenas quando esses senhores podiam começar a apaixonar-se pelas suas características verdadeiramente hispânicas, a sua violência, os seus excessos, as suas deformações e o seu realismo.
  Assim numa obra de 1922, o historiador alemão August Mayer entusiasmava-.se pelo cão que dorme no primeiro plano do célebre Martírio de São Cucufat, do museu de Barcelona. O desgraçado de um tótó adormecido tornava-se assim o símbolo da hispanidade. O aborrecimento, é que se descobriu, recentemente que o autor do Martírio de São Cucufat é um pintor de origem alemã (Ayne Bru), que pintou essa telavinte-e-cinco anos mais tarde do que se julgava, o que deu em pantanas com toda a bonita construção de psicologia nacional edificada sobre os rins do pobre quadrúpede.
  O perigo de ser demasiado sabido ameaça sempre o crítico de arte, visto que ele sabe sempre o que se passa a seguir.  Ele sente a tentação de escrever uma geneologia moral, em que os pintores românico-ibéricos engendrariam a El Greco, e El Greco a Velásquez, e este a Goya, e Goya a Picasso, etc. (...)

Claude Roy

22.1.14

Passagem de um texto de Rui Eduardo Paes sobre música, utopias e o livro The Dispossessed de Ursula Le Guin:

(...) Por algum motivo Kim Stanley Robinson, sustenta peremptoriamente que "a Ficção Científica é, presentemente, a mais importante forma de arte". Aliás, a FC tomou nos últimos 50 anos o lugar que as utopias tiveram desde, pelo menos, o século XVI e um visionário chamado Thomas Morus. Com a vantagem de o imaginário utópico actual, seja o projectado para outros planetas (The Dispossessed, Ursula Le Guin) como aquele que refere um tempo terrestre derivado dos presentes circunstancialismos (The Free, Mike Gilliland) ter perdido o clássico carácter distópico...

  Afinal em Arrares, o mundo que aplica os princípios da filosofa anarquista Odo (cuja obra Le Guin imagina como uma síntese das ideias libertárias desde Proudhon até 1974, ano em que publicou o livro), no já referido The Dispossessed, a música, tal como de resto, todas as demais artes, "não é considera como tendo um lugar na vida, sendo antes uma técnica básica da vida, à semelhança do discurso falado". Se todos aprendem a cantar e a tocar um instrumento desde crianças e se todos criam (ou não) música quando o entendem, na sociedade odonista não há músicos profissionais nem propriamente "concertos". A música faz parte do quotidiano, mas não dispõe de um espaço próprio e diferenciado no aparelho de produção, nem de círculos de distribuição ou de divulgação específicos.

  Até um ilustre, ainda que polémico, cientista como o protagonista Shevek dedica uma boa parte da sua atenção ao trabalho socialmente útil no imediato, surgindo a Física apenas como um part-time no seu dia-a-dia ou como uma actividade concentrada e períodos isolados na sua duração. Ora, não sendo a música considerada um bem de primeira necessidade, os odonistas criam-na somente nos tempos que o ensino da música lhes deixa livres, inserindo-a em contextos de socialização dos trabalhadores em que todos são músicos e ouvintes em simultâneo.

  Como escreve Ursula Le Guin quando Shevek assiste a um espectáculo na capitalista Abbenay, "ele pensava que a música era algo que se fazia e não que se ouvia". Pela primeira vez, testemunha um momento musical fruto da divisão e da especialização do trabalho, em que músicos tocam para não-músicos. Esta diferenciação social entre "produção" e "consumo" está no cerne mesmo do fenómeno pop. Se todos tivéssemos habilitações musicais não haveria tops ou hits. Nem de resto, Ghost Mice ou Jello Biafra.

  É neste ponto que a utopia da escritora norte-americana se confirma como uma contra-utopia, ou seja, uma utopia que a si mesma se denuncia, expondo, desmontando e recusando as suas tentações absolutistas. Mesmo não havendo governo, patrões e hierarquias, a sociedade e os seus utilitarismos constituem, ou podem constituir, um constrangimento à liberdade dos indivíduos.

  Só em parte Bakunine tinha razão quando dizia que uma pessoa só é livre quando todas as outras também o são. Todos esses outros homens e mulheres livres podem ser a causa de não o sermos nós mesmos...

  Como afirma a personagem Bedap sobre o "sofrimento espiritual" de alguém que deseje outra coisa que não aquilo que é pretendido pela generalidade dos cidadãos, alguém, por exemplo, que sinta a necessidade de se expressar musicalmente a tempo inteiro: "O sofrimento de pessoas que vêem o seu talento, o seu trabalho, a sua vida perdidos. De boas mentes submetidas a gente estúpida. De força e coragem estranguladas pela inveja, pela ganância do poder, pelo receio da mudança. A mudança é liberdade, a mudança é vida - há algo de mais básico no pensamento odoniano do que isso? Mas nada mais muda. A nossa sociedade está doente."

 É o que se passa, precisamente, com Salas, o compositor. Porque os mandatados do Sindicato dos Músicos não gostam do que faz, impedem-lhe uma maior dedicação à escrita. Numa reacção de rebeldia, ele recusa-se a dar aulas... "É que eu não componho dessa maneira que se ensina no conservatório. Componho música disfuncional. Eles querem corais, mas eu odeio corais. Querem peças de harmonia aberta como as que Sessur escrevia, mas eu odeio a música de Sessur. Estou a escrever uma peça de música de câmara e vou chamar-lhe "O Princípio da Simultaneidade" [nota: o mesmo nome da teoria física de Shevek]: cada um dos cinco instrumentos toca um tema cíclico independente, sem causalidade melódica, com o processo de desenvolvimento surgindo inteiramente da relação entre as partes."

  Infelizmente, como Sala conclui, "eles não ouvem, não querem ouvir". É a vertente colectivista da Anarquia que se contrapõe à individualista, comprovando que os preceitos comunistas de Kropotkine só fazem sentido quando se colocam em prática também os "egoístas" de Stirner, sob o risco de se instalar outro totalitarismo.

  Repare-se no comentário de Bedap: "Como podem eles justificar esse tipo de censura? Tu compões música! A música é uma arte cooperativa, orgânica por definição, social. Pode ser a mais nobre forma de comportamento social de que somos capazes.E é com certeza um dos mais nobres trabalhos que um indivíduo pode desempenhar. Pela sua natureza, pela natureza de qualquer arte, é uma partilha. O artista partilha, é essa a essência da sua actividade." Ou seja, "a complexidade, a vitalidade, a liberdade de invenção  iniciativa que estavam no centro do ideal odoniano estão a ser deitados fora". "Estamos a voltar à barbárie."

  The Dispossessed vira os princípios anarquistas contra os próprios princípios anarquistas, apresentando a sociedade alternativa não como uma solução perfeita, mas como algo que tem os seus inerentes paradoxos e é necessário aperfeiçoar continuamente. Nada que se assemelhe ao congelado e estéril Falanstério de Fourier. Seja como for, um Jello Biafra ou um Lemmy não podem esperar um cenário minimamente parecido com aquele que os conduziu à fama. (...)










12.1.14



Raymond Pettibon, Untitled (the light which), 2004

31.12.13

eterna sombra

Yo que creí que la luz era mía,
precipitando en la sombra me veo.
Ascua solar, sideral alegría
ígnea de espuma, de luz, de deseo.

Sangre ligera, redonda, granada:
raudo anhelar sin perfil ni penumbra.
Fuera, la luz en la luz sepultada .
Siento que sólo la sombra me alumbra.

Sólo la sombra. Sin astro. Sin cielo.
Seres. Volúmenes. Cuerpos tangilbles
dentro del aire que no tiene vuelo,
dentro de árbol de los imposibles.

Cádernos ceños, pasiones de luto.
Dientes sedientos de ser colorados.
Oscuridad del rencor absoluto.
Cuerpos lo mismo que pozos cegados.

Falta el espacio. Se ha hundido la risa.
Ya no es posible lanzarse a la altura.
El corazón quiere ser más de prisa
fuerza que ensacha la estrecha negrura.

Carne sin norte que va en oleada
hacia la noche siniestra, baldia.
¿Quien es el rayo de sol de la invada?
Busco. No encuentro ni rastro del dia.

Sólo el fulgor de los puños cerrados,
el resplandor de los dientes que acechan.
Dientes y puños de todos los lados.
Más que las manos, los montes se estrechan.

Turbia es la lucha sin red de mañana.
¡Qué lejanía de opacos latidos!
Soy una cárcel con una ventana 
ante una gran soledad de rugidos.

Soy una abierta ventana que escucha,
por donde va tenebrosa la vida.
Pero hay un rayo de sol en la lucha 
que siempre deja la sombra vencida.


Miguel Hernández
circa 1941


(...) La aflicción es patente en "eterna sombra" sin atenuantes, sin motivos antitéticos habituales: amor-odio, vida-muerte, luz-penumbra, sino abierta, irreprimiblemente. Miguel se siente ya "precipitado en la sombra", no trata de disimular consigo mismo. Ni astros ni cielos ven ya sus ojos 
- él, que fue perito en lunas -; (...) 

María de Gracia Ifach (na introdução da Antologia)

o anjo da história



Um desenho do Klee chamado "Angelus Novus" mostra um anjo que olha enquanto se vai afastando de qualquer coisa que contempla fixamente. Os seus olhos estão atentos, a sua boca aberta, as suas asas estendidas. É assim que se representaria o anjo da história. A sua cara está voltada para o passado. Onde nós vemos uma série de acontecimentos encadeados, ele vê uma só catástrofe que amontoa continuamente ruínas sobre ruínas  aos seus pés. O anjo gostaria de ficar, despertando os mortos e recuperando o que foi destruído. Mas uma tempestade sopra do paraíso, atinge as suas asas com tamanha força que o anjo já não as consegue fechar. A tempestade impele-o irresistivelmente para o futuro para o qual as suas costas estão voltadas, enquanto a pilha de escombros cresce até ao céu. Essa tempestade é o que chamamos de progresso.

— Walter Benjamin,
  Ninth Thesis on the Philosophy of History

traduzido o melhor possível.... hoje.